Aracaju 154 Anos

Entrevistas

10/03/2009, 09:05h

“Ponte do Imperador é nosso Cristo Redentor”

Tendo como marco arquitetônico a atual praça Fausto Cardoso, Aracaju foi criada para ser a capital da província em substituição ao município de São Cristóvão. Projetada pelo engenheiro Sebastião Basílio Pirro seguindo estudos de vanguarda, ainda no final do século XIX, a cidade foi erguida às margens do rio Sergipe com o objetivo de permitir a escoação da produção açucareira do interior e impulsionar o desenvolvimento sergipano.

Para conhecer um pouco mais sobre a capital batizada pelo Ministério da Saúde como campeã brasileira em qualidade de vida, confira uma breve entrevista com o professor de história do Centro Federal de Educação Tecnológica de Sergipe (Cefet/SE), Amâncio Cardoso, que coleciona fotos antigas e pesquisa fatos históricos de Aracaju.

Entre as fotografias mais valiosas do seu acervo, está a da zona portuária de Aracaju em 1869, ou seja, 14 anos após a mudança da capital. Professor Amâncio é mais um das personalidades entrevistas pela Agência Aracaju de Notícias (AAN) para o hotsite comemorativo ao aniversário da cidade.

Agência Aracaju de Notícias (AAN) - Qual foi o marco inicial de Aracaju?

Amâncio Cardoso (AC) - O marco arquitetônico inicial da cidade foi a Praça do Palácio - hoje Praça Fausto Cardoso -, porque ali foram colocados os primeiros pinos de demarcação da área a ser construída da cidade pelos engenheiros comandados pelo engenheiro Pirro [Sebastião José Basílio Pirro]. Nós poderíamos chamar o núcleo urbano do centro histórico de Aracaju a praça Fausto Cardoso.

AAN - Muito se fala que Aracaju foi a primeira cidade planejada do Brasil. Qual foi a parte realmente planejada da cidade?

AC - Não devemos confundir projeto arquitetônico com planejamento; ela foi projetada.  Foi feito um projeto arquitetônico, uma espécie de croqui da cidade, mas planejamento requer uma política mais complexa, pensar no futuro, na ampliação dela, nas demandas do futuro.  Então ela não foi planejada, ela foi projetada.

AAN - Qual foi a parte projetada da cidade de Aracaju?

AC - A parte projetada foi o que hoje corresponde a área entre a avenida Barão de Maruim ao sul, até o que hoje é a praça General Valadão ao norte; e na parte leste o rio Sergipe - a avenida Ivo do Prado, ou a antiga rua da Aurora - até a avenida Pedro Calazans a oeste.

AAN - Muita gente atribui o surgimento da cidade de Aracaju a partir do bairro Santo Antônio. Por que isso acontece?

AC - Porque realmente aquele lugar, o Santo Antônio e a circunvizinhança, é muito mais antigo do que a capital.  Ali era um local de moradores, de pequenos sitiantes, lavradores, que pertenciam à comarca de Nossa Senhora do Socorro do Cotinguiba.  Então, antes da capital existir, já existia aquele logradouro, mas quando a cidade é fundada, criada por lei, ele não pertence ao município de Aracaju; ele continua a pertencer ao antigo município de Socorro.  Depois é que ele é incorporado à capital. Então não podemos considerar o bairro Santo Antônio como o local mais antigo da então capital Aracaju, e sim a área do projeto que foi oficialmente instalada a cidade.

AAN - Dentro da história da criação da cidade de Aracaju, quais pontos o senhor considera importantes e por quê?

AC - Eu consideraria pontos importantes os marcos arquitetônicos da cidade. A Ponte do Imperador - apesar de ela não ser um marco dos primeiros dias, anos, da história de Aracaju, ela foi construída quatro anos depois para servir de ancoradouro para o imperador [D. Pedro II], mas eu acho que, como ela permanece na nossa memória de forma muito significativa, é um ponto marcante da nossa cidade.  Seria o nosso Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.  O segundo ponto que eu acho muito importante devido ao seu uso na história foi a nossa primeira igreja, a primeira igreja de Aracaju capital - que não é a de Santo Antônio, que como eu falei, - Santo Antônio pertencia a outra freguesia - é a igreja de São Salvador.  Esta igreja foi construída dois, três anos depois da capital fundada devido a ausência de uma igreja.

AAN - Não existiam igrejas em Aracaju naquela época?

AC - Por conta da morte de Inácio Barbosa [fundador de Aracaju] não havia sido acabada a igreja que ele tinha projetado, então construíram uma outra, que é a São Salvador.  Essa é a nossa primeira igreja, que recebeu o imperador para assistir uma missa de ação de graças e foi o local onde enterraram os restos mortais de Inácio Barbosa. Então ela tem uma ligação com a fundação da cidade que eu acho primordial se valorizar.  Outro ponto que eu acho importante na nossa capital é a antiga Praça do Palácio, a Fausto Cardoso, por ela ser o núcleo do nosso centro histórico. Foi ali onde tudo começou e é ali ainda onde se realizam vários acontecimentos cívicos, políticos, sociais, onde as pessoas se encontram, onde fica a antiga sede do governo e todos os poderes estavam ao seu entorno por ser um núcleo.

AAN - O senhor possuiu uma coleção de fotos antigas da capital. De onde surgiu esse hobby, quais as peças mais valiosas e como as fotos são adquiridas?

AC - Sou aracajuano da gema. Além disso, sou nostálgico; e geralmente tenho ‘saudade' de épocas que não vivi. Não se trata de experiência espiritualista, mas existencialista. Sinto-me parte visceral de Aracaju. Daí minha relação de amor e ódio com ela. Muito humano, não? Como enveredei pelo estudo de sua história e sempre gostei de apreciar imagens, levantei fotos que busco na internet, em acervos de amigos e as que eu mesmo produzo. Ultimamente, ensino num curso de turismo e isto me fez pesquisar ainda mais sobre nossa capital. A foto mais valiosa que possuo foi encontrada no site do Instituto Moreira Sales [IMS]. Ela retrata a zona portuária de Aracaju em 1869, ou seja, quatorze anos após a mudança da capital. Acredito que esta imagem seja inédita para os aracajuanos. É um momento oportuno apresentá-la no aniversário de Aracaju.