Aracaju 154 Anos

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12/03/2009, 17:11h

Conheça a história de resistência e luta do bairro América

Se hoje a população aracajuana se orgulha de celebrar 154 anos de muitas conquistas, muito se deve ao bairro América. Foi ali, em um local estigmatizado como violento e perigoso, que surgiu pela primeira vez o sentimento de comunidade, as relações de identidade e solidariedade tão necessárias ao fortalecimento da capital.

"A mobilização popular sempre foi uma característica muito forte no bairro América. A união da comunidade foi fundamental em diversos momentos da história, desde a construção da igreja até a luta contra os efeitos nocivos da instalação da Fábrica de Cimento Portland nas proximidades do bairro", explica a historiadora e professora de história da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Valéria Maria Santana Oliveira.

Nascida em Alagoas e criada em Aracaju, Valéria passou quatro anos realizando longas pesquisas sobre a história de uma das mais conhecidas localidades da capital sergipana. "Em 2005, concluí a monografia da graduação em História, com o tema ‘Entre altos e baixos: fontes para a história do bairro América'. Mas, ao longo da pesquisa, descobri o quanto a história do local está diretamente ligada à história da fábrica de cimento. Então, fiz uma pesquisa mais aprofundada sobre o caso para o mestrado em Meio Ambiente", conta Valéria.

Casa de Detenção

Na década de 1920, as habitações da capital se concentravam na área do Quadrado de Pirro, que ia até o bairro Cirurgia, na direção leste-oeste. Como o espaço do atual bairro América ficava às margens do quadrado, foi escolhido para abrigar a Casa de Detenção de Aracaju, em 1926.

"Logo após a construção da penitenciária, parentes dos presos foram morar nas redondezas para ficar mais próximos dos internos. Por causa disso, foram os primeiros a enfrentar o estigma que há muitos anos permeia a região: o de ser um bairro de ‘bandidos'", explica a historiadora.

Santuário de São Judas Tadeu

O segundo marco na história do bairro América aconteceria 40 anos depois. Em 1961, um grupo de frades capuchinhos italianos se instalou na região e iniciou a construção da Igreja São Judas Tadeu. Para Valéria, o fato ficou marcado na memória pela solidariedade e pelo empenho da comunidade na concretização da obra.

"A mobilização dos moradores foi o que impulsionou a construção da igreja. Um dos grandes exemplos foi a campanha do piso, em que cada um doava um piso no valor de 30 cruzeiros ou preenchia uma ficha se comprometendo a fazer a doação da quantia para a obra. Todos participaram", relata a pesquisadora.

Embora a primeira missa tenha sido rezada já em 1962, a obra completa durou mais alguns anos para ser concluída. A própria campanha do piso foi realizada 10 anos depois, em 1972. Mas, independente disso, a comunidade sempre continuou a participar das atividades da igreja. "Além da população do bairro, pessoas de outros locais faziam peregrinações, o que rendeu à Igreja o nome de Santuário de São Judas Tadeu", diz Valéria.

Em 1973, foi encenado pela primeira vez o espetáculo da Paixão de Cristo, que até hoje atrai centenas de moradores de regiões próximas e até mesmo de bairros distantes. "Esse é um ponto muito lembrado pela comunidade, pois sempre emocionou a todos. Depois de 10 anos sem ser realizada, a encenação foi retomada pelo frei Anílson Vasconcellos, em 2004, com o grupo de Teatro São Francisco de Assis [Grutesfa]", relembra.

Um dos fundadores da igreja é o frei Miguel, hoje com 100 anos e bastante conhecido em toda a cidade. "Ele já não celebra mais missa por conta de um derrame, mas atende confissões todos os dias e leva eucaristia para as pessoas doentes que não podem vir", afirma Valéria. Na década de 60, o frei Miguel e outras lideranças da igreja conseguiram mobilizar a comunidade do bairro América contra o pior inimigo que o bairro já teve um dia: a Fábrica de Cimentos Portland.

O caso da Fábrica Portland

Na dissertação de mestrado ‘Movimento social e conflitos socioambientais no bairro América: o caso da Companhia de Cimento Portland de Sergipe', apresentada no ano passado, Valéria apresenta com riqueza de detalhes a história da indústria lembrada por todos como o caso da fábrica de cimentos ou a ‘luta entre Davi e Golias'.

Em 1967, o grupo Votorantim instalou a Fábrica de Cimentos Portland na avenida Augusto Franco, no local onde hoje fica o Residencial Vivendas de Aracaju. Embora a fábrica ficasse no bairro Siqueira Campos, suas chaminés liberavam no bairro América uma grande quantidade de pó oriundo da produção de cimento, o que passou a afetar seriamente a rotina da comunidade.

"Temos relatos de doenças respiratórias graves, causadas pela fuligem. Os problemas de saúde se alastraram rapidamente e ficaram conhecidos pela população como ‘cimentite'", conta a pesquisadora.

Em sua dissertação, a historiadora destaca a importância que a igreja teve na luta em defesa da comunidade. "Na época, as missas eram transmitidas pela TV Atalaia. Os freis exibiam depoimentos de pessoas doentes e, a cada sermão, conclamavam a população de Aracaju a se erguer contra o mal que a poluição estava levando àquele povo. Vale ressaltar que era uma época de ditadura militar, o que dificultava a mobilização. Mas a comunidade do bairro América se sentia muito fortalecida pelos líderes religiosos e se empenhou com vigor nessa batalha, encampada também pela Associação de Moradores do bairro, a Amaba, e posteriormente por outras instituições", destaca.

"A comunidade não queria que a fábrica saísse do local, pois gerava empregos para muitas famílias. O que eles reivindicavam era que fossem utilizadas tecnologias capazes de filtrar a poluição", explica Valéria. Depois de muita batalha, a fábrica instalou filtros eletrostáticos e em seguida um sistema de umedecimento do pó de cimento. No entanto, o filtro não reduziu a poluição, uma vez que era desligado por longas horas do dia devido ao alto consumo de energia. A partir de então, a luta se intensificou pela saída da fábrica.

Vitória

A batalha durou vários anos, sempre capitaneada pela Igreja São Judas Tadeu. Até que, em 1984, a fábrica foi interditada e parou de produzir cimento. "Passou a trabalhar apenas com calcário, o que não representava perigo ambiental", diz Valéria. No entanto, em 1987 ela tentou retomar as atividades com a produção de cimento, mas foi impedida pela Administração Estadual do Meio Ambiente (Adema).

Por conta de incentivos fiscais na década de 80, o grupo Votorantim iniciou a construção de novas instalações na cidade de Laranjeiras. Sem habitações próximas à nova fábrica, que existe até hoje, e sem processos para responder, o novo empreendimento tornava-se mais vantajoso do que a Portland e, aos poucos, foi substituindo as atividades da sede instalada em Aracaju.

"No entanto, mesmo que a fábrica não tenha conseguido retomar as atividades, a população só se sentiu segura mesmo em 2002, quando as chaminés foram destruídas. Elas representavam uma violência simbólica, pois enquanto estavam ali, sempre deixavam a população com o receio de que ela fosse reativada a qualquer momento", analisa a historiadora.

A vitória da população contra a fábrica foi muito importante para a reafirmação da comunidade enquanto tal. "Com a mobilização liderada pelos freis, as pessoas se sentiram mais fortes para reivindicar melhorias no bairro e outras lutas importantes do dia-a-dia", explica Valéria.

Ruas ‘americanas'

De acordo com a tradição oral repassada pelos moradores, toda a área do bairro América pertencia a um imigrante judeu norte-americano, fato que mais tarde seria confirmado pela historiadora Valéria Maria, através de documentos obtidos em cartório. "Depois que o espaço foi todo loteado, as ruas receberam o nome de países americanos, em homenagem ao primeiro ‘proprietário' do bairro", diz Valéria.

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