O acesso ao conhecimento abre portas e tem o poder de mudar realidades. Uma prova disso são os resultados dos trabalhos da Educação dos Jovens e Adultos (EJA) nas escolas da rede municipal de Aracaju. As histórias contadas pelos alunos da modalidade evidenciam a superação de desafios e todo o progresso conquistado por eles a partir do apoio educacional inclusivo. A descoberta dos próprios talentos, os potenciais revelados e a retomada da dignidade são alguns dos principais pontos narrados por esse público. As matrículas na rede de Aracaju estão abertas para pessoas de 15 anos ou mais que querem retomar ou iniciar os estudos.
Um dos exemplos de alunos que estão vivenciando uma transformação pessoal a partir dos estudos é a dona de casa Alvanice Amaral, de 59 anos. Ela é aluna da Escola Diomedes Santos Silva, no bairro Santa Maria, há um ano. Alvanice conta que estudou até os 16 anos e tinha dificuldades para leitura, escrita e outros conteúdos. Interrompeu para se dedicar à família, cuidar dos filhos mas, recentemente, optou por construir uma nova história.
“Essa oportunidade veio quando descobri a EJA. Eu disse: ‘agora vai ser a minha vez’. A EJA me mostrou que eu posso além daquilo que a minha imaginação me dá. Posso muito mais! Não é a minha idade que vai me impedir de alcançar os meus objetivos. Nós mesmos enterramos os nossos talentos, os propósitos de vida, mas aí eu descobri a EJA, que é como uma mãe pra gente e vi que nunca é tarde pra um recomeço. Eu estou às portas dos 60 anos, mas, para mim, estou começando de novo. E eu digo para todas as pessoas que querem retomar as suas vidas, que não desistam”, relatou Alvanice.
Além da evolução em outros componentes como Língua Portuguesa e Matemática, Alvanice Amaral narra a descoberta de uma vocação. Após a execução de projeto em sala de aula, que valoriza habilidades artísticas dos estudantes, ela potencializou o amor pelo artesanato. “Eu descobri aqui dentro o dom da artesã. Agora, eu posso dizer que sou artesã. Esse ideal meu estava morto, mas eu descobri aqui na EJA. Hoje, faço quadros, peças de cordas, jarros, decoração em madeiras e pequenas peças. Tudo muito bonito”, destaca.
A dona de casa Maria Helena Santos tem 76 anos e é aluna da Escola Municipal Manoel Bomfim, no conjunto Bugio. Ela diz que já tinha interesse em ampliar os conhecimentos, mas a principal motivação para voltar a estudar foi o atendimento que recebeu na instituição, desde quando entrou até hoje. “Comecei na EJA em 2023, fui bem recebida, com carinho e daí para cá eu comecei a frequentar a escola, onde aprendi muita coisa e continuo aprendendo. Eu não perco nada que tem na escola, passeio, entretenimento, tudo que oferece eu participo. Gosto muito dos professores, da direção e da coordenação, eles são espetaculares. Além disso, a escola é toda climatizada, nós recebemos material escolar, livros e fardas, e tem refeitório pra gente fazer a nossa refeição. Eu só tenho a agradecer”, afirma Maria Helena.
A estudante descreve que frequentou escola até os 12 anos, no município de Carmópolis. Depois que a família veio morar em Aracaju, com o falecimento da mãe, ela foi morar com as tias, precisou trabalhar e parou de estudar. Em 2026, ela vai cursar a 6ª etapa na EJA e conta que esse recomeço é bastante significativo para a vida dela. Inclusive, fez florescer nela o encanto pela poesia. “Aprendi muito mesmo a ler, a escrever, a desenhar. Hoje, escrevo muitas poesias. Já ganhei até medalha, troféu no concurso da Secretaria da Educação. Eu estou crescendo. Gosto muito daqui e convido todos para virem para a Escola Manoel Bomfim, para aprender como eu aprendi, estudar como eu estou estudando. Vocês vão adorar”, garante Maria Helena Santos.
Matrícula presencial
A Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Educação (Semed), disponibiliza a EJA em 16 escolas municipais, com possibilidade de aumento em breve. Em toda a rede, as matrículas para todas as etapas de ensino estavam abertas para alunos novos até essa terça-feira, 20 de janeiro. No entanto, para a EJA, os interessados podem efetuar a matrícula nos próximos dias, antes do início do ano letivo, que ocorre no dia 2 de fevereiro.
A coordenadora da EJA na rede municipal de Aracaju, Ana Izabel, explica que a matrícula é online, por meio do Portal da Educação, porém as equipes das escolas estão preparadas para o atendimento presencial. “Se o aluno tiver dificuldades para o acesso ao portal, basta procurar uma das nossas escolas, para que a equipe diretiva auxilie e o aluno realize a matrícula na própria escola. Caso tenha dúvidas, o público também pode ligar para a coordenação da EJA, no número 3179-1538, que nós vamos dar toda a orientação, inclusive, dizer qual a escola mais próxima da sua residência. Estamos de portas abertas com escolas acolhedoras. Nunca estudou ou parou por algum motivo? Pode procurar que a rede está preparada para te atender”, disse.
Mais histórias inspiradoras
O pedreiro Claudomiro dos Santos menciona que precisou trabalhar cedo, ainda criança, e não pôde estudar. Ele diz que seus pais tiveram 23 filhos e, com o falecimento do pai, complicaram as condições para sua família. Sem saber ler e incomodado com os impactos negativos disso, Claudomiro decidiu pôr um ponto-final nessa situação e resgatar a autoestima. Ele diz ter entre 51 e 55 anos, não sabe exatamente por não ter sido registrado previamente, e expressou a satisfação por estar evoluindo a cada dia com as aulas na Escola Manoel Bomfim.
“Eu resolvi fazer parte da EJA, porque eu queria aprender. A pessoa, hoje em dia, se não tem uma leitura, não tiver um 'saberzinho', a pessoa não é nada. Quando não sabe ler, a pessoa está cega; está enxergando tudo, mas sem saber ler, não sabe de nada. Aqui, graças a Deus, eu estou enxergando um pouquinho. Estou aprendendo a ler e na hora de fazer contas, que antes eu fazia de cabeça, agora, já passo para o caderno”, conta.
A aluna da Escola Manoel Bomfim, Ilda Tavares, de 71 anos, é mais uma senhora que abraçou a oportunidade de aprendizado na rede municipal. De sobra, conta que frequentar a unidade do Bugio contribuiu para a sua qualidade de vida. Ela menciona que espera ansiosa pelo retorno às aulas. “Antes da EJA, eu só ficava assistindo à televisão, sentada no sofá ou deitada. Depois que entrei aqui, não faço mais nada disso. Venho à escola e eu amo de coração”, relata.
Ela explica que não teve oportunidade de estudar, porque trabalhava na roça com o pai quando era menina. Diz que também casou nova, teve quatro filhos e precisou criá-los. Há dois anos matriculada na escola, ela manifesta a emoção e a alegria pelos avanços alcançados. “Sabia fazer meu nome bem pouquinho. Agora, eu já sei, faço ele direitinho. Já dá até para escrever uma carta para o namorado (risos)”, comenta Ilda Tavares.