Reforma da UQP do Porto Dantas reacende esperança de qualificação e emprego na comunidade

Formação para o Trabalho
09/04/2026 16h45
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“Não adianta oferecer curso longe se as pessoas não têm dinheiro para pagar transporte todos os dias”. A fala da presidente da Associação dos Moradores do Porto D'antas, Maria Lídia Santos Oliveira, resume o sentimento de uma comunidade que reivindicava, há quase dois anos, a reabertura da Unidade de Qualificação Profissional (UQP) do bairro, que conta com mais de 18 mil moradores, segundo o IBGE. Fechada desde 2024, a unidade teve sua reforma autorizada pela prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, na quarta-feira, 8, e deve voltar a funcionar como espaço de qualificação profissional e atendimento social, reacendendo, entre os moradores, a expectativa de acesso mais próximo a cursos, oportunidades de emprego e serviços públicos essenciais.

A retomada da UQP foi sendo construída no diálogo com a própria comunidade. Neste ano, o bairro recebeu duas escutas ativas promovidas pela Prefeitura de Aracaju. A primeira aconteceu em fevereiro, no Centro Social do bairro, reunindo secretarias e órgãos municipais para ouvir as principais demandas da população. A segunda foi realizada em março e aprofundou essa aproximação, com a presença da Fundat e da Secretaria Municipal da Assistência Social (Semfas). Foi nesse encontro que os moradores ouviram a notícia de que a unidade seria reformada e que o retorno dos serviços do Cras também estava previsto.

Mais do que uma resposta administrativa, o anúncio mexeu com memórias, expectativas e urgências acumuladas, além de demonstrar a política de fazer uma gestão pública mais próxima dos moradores.

Para Maria Lídia Santos Oliveira, presidente da Associação dos Moradores do Porto D'antas, a assinatura da ordem de serviço é a confirmação de uma luta que nunca saiu da pauta da comunidade. Durante anos, ela acompanhou de perto a cobrança dos moradores pela reabertura da unidade. Viu o prédio fechado, o tempo passar e a necessidade aumentar. Por isso, fala do momento com o peso de quem conhece a história por dentro. Segundo ela, não se trata apenas de recuperar um imóvel, mas de devolver à comunidade um serviço essencial. Ela lembra que muitas pessoas deixam de buscar qualificação quando o curso é ofertado longe de casa, porque simplesmente não conseguem arcar com o transporte diário. Para ela, ter esse tipo de equipamento dentro do bairro é uma necessidade real, sobretudo para quem enfrenta dificuldades financeiras. Depois de tanto tempo de espera, o sentimento é de gratidão. "Hoje, estamos nos sentindo abençoados!", afirmou.

Essa mesma percepção aparece em falas simples, mas carregadas de significado. Amanda Santana, por exemplo, olha para a reforma da unidade com os olhos de quem enxerga, ali, uma chance de aproximação com o próprio futuro. Para ela, o retorno da UQP representa praticidade, acesso e possibilidade. Moradora da região, Amanda comemora o fato de o equipamento voltar a funcionar perto de casa. É nesse detalhe, o “ficar mais perto”, que se concentra uma transformação silenciosa, mas profunda: quando a oportunidade deixa de estar distante, ela começa a parecer possível. Interessada em cursos na área administrativa e também em funções ligadas ao setor de saúde, Amanda já projeta o que poderá construir a partir dessa reabertura. "Estou adorando o anúncio dessa reforma. Vai melhorar mais ainda a situação do Porto D'antas", destacou, com um sorriso cheio de esperança.

Entre os moradores mais antigos, o anúncio também despertou um sentimento de alívio. Josefá dos Santos, que vive há mais de 30 anos no Porto D'antas, recebeu a notícia com entusiasmo de quem sabe o quanto aquele espaço faz falta. Ao olhar para a unidade e imaginar sua reabertura, ela não pensa apenas nas paredes reformadas, mas nos jovens ocupando as salas, aprendendo, se preparando, descobrindo caminhos. Para Josefá, o retorno do espaço é importante porque leva oportunidade para perto de quem precisa e porque reafirma algo que o tempo já ensinou: "Quero um curso de informática aqui porque hoje muitas profissões exigem conhecimento em informática. Os jovens vão poder aproveitar bem os cursos que virão", afirmou.

Já Maria Lúcio, moradora do bairro há mais de 30 anos, fala com a memória de quem viu gerações crescerem no Porto D'antas. Ela conhece o peso do tempo sobre um prédio fechado e sobre uma comunidade que espera. Em sua fala, o abandono do espaço se mistura à preocupação com os jovens, que precisam de ocupação, perspectiva e oportunidade. Mãe de uma adolescente de 14 anos, ela projeta no retorno da UQP uma esperança concreta para a nova geração. Pensa na filha, nos cursos que ela poderá fazer, nas habilidades que pode desenvolver, no futuro que talvez comece a ser desenhado ali, dentro do próprio bairro. "Os jovens precisam de ocupação e oportunidade. Espero que esta reforma possa trazer tudo isso para eles". Ao mesmo tempo, sua fala carrega uma cautela quase dolorida, de quem já ouviu promessas demais. "Já ouvi promessas demais no passado e quem gosta de promessas são os santos, mas hoje não estou vendo uma promessa, mas algo concreto", completou.

A história de Lenilson Henrique mostra, por outro lado, que o impacto da UQP não está apenas no que ela ainda pode oferecer, mas também no que já representou no passado. Morador do bairro, ele lembrou, durante uma das escutas ativas, que foi naquela mesma unidade que fez, aos 16 anos, um curso de informática que abriu portas em sua trajetória profissional. A lembrança pessoal transforma o espaço em algo maior que um prédio público: ele passa a ser, também, um lugar de virada de vida. Hoje, aos 34 anos, Lenilson vê com alegria a possibilidade de outros jovens experimentarem o que ele um dia viveu. "Saber que a unidade vai voltar a funcionar é uma alegria enorme", afirmou.

Viabilização

Na avaliação da presidente da Fundat, Melissa Rollemberg, a retomada da unidade integra o esforço da gestão municipal para recuperar estruturas importantes para a população. Segundo ela, desde o início da administração, a prefeita determinou a realização dos estudos técnicos e dos trâmites necessários para viabilizar a obra. “A Fundat está desativada aqui desde 2024. Assim que chegamos, a prefeita determinou que fosse feito todo o estudo e a licitação para que a empresa vencedora pudesse reformar esse espaço tão precioso. Aqui se desenvolviam cursos de qualificação e a população também tinha acesso a outros serviços da Fundat”, afirmou.

Melissa também ressaltou que o projeto foi moldado a partir da escuta da própria comunidade. “Nós estivemos aqui por duas vezes em reuniões para ouvir a população, para que eles pudessem dizer exatamente o que gostariam que tivesse aqui dentro. E assim será feito. Teremos sala de tecnologia, salas para aulas nas áreas administrativas e em várias outras frentes. Através dessa escuta, a gente vai fazendo aquilo que a população realmente quer e merece, que é dignidade”, disse.

A obra será executada pela CB Engenharia, com prazo estimado de 90 dias. Segundo o gerente de projetos da empresa, Guilherme Domingues, a reforma será ampla e vai abranger cobertura, pintura, pavimentação e acessibilidade. Ele afirmou que, apesar dos desafios estruturais, a expectativa é entregar o espaço totalmente recuperado no prazo previsto. "É uma obra desafiadora, mas entregaremos em perfeito estado", afirmou Guilherme. 

Pelo lado dos moradores, o desafio é conter a ansiedade até que tudo fique pronto, visto que a reforma da UQP representa a chance de transformar um prédio fechado em ponto de partida na vida de muitos jovens da comunidade.