Muito antes de se consolidar como um dos bairros tradicionais de Aracaju, o Siqueira Campos já carregava diferentes identidades e histórias. Conhecido inicialmente como Aribé, termo de origem indígena que faz referência a um tipo de tacho de barro, o local também recebeu, durante parte do século passado, o nome de ‘Oficinas’, em alusão às oficinas ferroviárias instaladas na região pela antiga Leste Brasileira.
Somente após a Revolução de 1930, a localidade passou oficialmente a se chamar Siqueira Campos, em homenagem a Antônio de Siqueira Campos, um dos integrantes do movimento dos 18 do Forte.
Ao longo das décadas, o bairro construiu uma trajetória marcada pela forte presença cultural, política, comercial e afetiva na capital sergipana. Para a vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), Tereza Cristina Cerqueira da Graça, as décadas de 1970 e 1980 representam o auge dessa efervescência social e cultural.
“Eu chamo as décadas de 70 e 80 de décadas de ouro, porque o Siqueira Campos viveu um período de intensa movimentação cultural, política e social. Era um bairro muito vivo, com associações comunitárias fortes, grupos culturais, movimentos populares e uma vida noturna muito intensa”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, o bairro tornou-se um dos principais polos de mobilização popular de Aracaju em um período marcado pela abertura política no Brasil e pelo fortalecimento dos movimentos sociais.
“Ainda no fim da década de 1970, o Siqueira Campos passou a concentrar associações comunitárias, grupos de mulheres e organizações populares que ajudaram a transformar a região em referência de participação política na capital”, destacou Tereza Cristina.
A tradicional Pracinha do Siqueira, atual Praça Dom José Thomaz, tornou-se um dos símbolos desse protagonismo. “Quem queria dialogar com a população precisava passar pelo bairro. Havia uma mobilização popular muito forte”, relembra Tereza.
Mas para a pesquisadora foi a intensa vida boêmia e cultural que ajudou a consolidar a identidade histórica do bairro. Bares, restaurantes e espaços culturais atraíam frequentadores de diferentes regiões da cidade e reuniam artistas, estudantes, intelectuais, trabalhadores e representantes da elite aracajuana em um mesmo ambiente.
“Entre os estabelecimentos mais emblemáticos estavam o ‘Flor do Siqueira’,‘Bar Palhoça’ e o ‘Meu Refúgio’, conhecido pela gastronomia exótica e criado durante a gestão do ex-prefeito (1971-1975) Cleovansóstenes Pereira Aguiar como estratégia para fortalecer o turismo local. Outro ponto marcante foi a ‘Cantina do Bizu’, pertencente ao empresário Hilton Lopes, que chegou a sediar um dos tradicionais Bailes dos Artistas da sociedade aracajuana”, relembra a pesquisadora.
A cena cultural também encontrou no bairro um importante espaço de formação artística. Tereza destaca que o ‘Bar do Estudante’, localizado na rua Mariano Salmeron, tornou-se ponto de encontro de músicos, intelectuais e artistas sergipanos. “Foi ali que surgiram iniciativas culturais e musicais que ajudaram a fortalecer a produção artística local”, pontua.
Ainda de acordo com a pesquisadora, o Siqueira Campos também abrigou espaços considerados pioneiros na diversidade cultural e social da cidade, acolhendo diferentes grupos e contribuindo para a construção de uma identidade plural e aberta à convivência.
“A força cultural do bairro também se refletiu na música e no teatro. Em 1984, o Siqueira Campos sediou a primeira edição do Festival Novo Canto, realizado no Teatro Lourival Baptista, revelando artistas que posteriormente ganharam destaque na cena cultural sergipana. Foi também no bairro que nasceu o Grupo Regional de Folclore e Arte Cênica Amadorista Castro Alves (GRFACACA), liderado por Severo D’Acelino e reconhecido como um importante celeiro de artistas do teatro sergipano”, conta Tereza.
Apesar da forte memória cultural preservada pelos antigos moradores, o bairro passou por profundas transformações urbanas nas últimas décadas. Tereza Cristina diz que a expansão comercial modificou significativamente a dinâmica da região, sobretudo nas áreas centrais, hoje ocupadas majoritariamente por clínicas, consultórios, lojas e prestadores de serviço.
“Esse centro do bairro ficou muito comercial. As famílias foram saindo, os filhos cresceram e foram morar em outros bairros. Aos poucos, a gente perdeu muito daquela essência residencial e boêmia do antigo Siqueira, mas o veículo afetivo ainda é muito presente entre os moradores”, observou.
Décadas depois, o Siqueira Campos continua sendo um espaço de convivência, memória e participação comunitária. Essa vocação permanece presente em iniciativas que aproximam o poder público da população. Neste sábado, 30, o bairro recebe mais uma edição do ‘Tamo Junto Aracaju’, promovido pela Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal de governo (Segov).
A ação reunirá serviços gratuitos nas áreas de saúde, assistência social, cidadania, emprego e qualificação profissional, com atendimento na Escola Municipal Presidente Vargas. A iniciativa busca fortalecer o vínculo entre os serviços públicos e as comunidades, reafirmando uma característica que acompanha a história do bairro: a mobilização e a participação popular.
Parte dessa memória coletiva permanece concentrada na Praça Dom José Thomaz, conhecida popularmente como Pracinha do Siqueira. Tradicional ponto de encontro de moradores durante décadas, o espaço segue exercendo esse papel após a recente revitalização promovida pela Prefeitura de Aracaju.
Moradora da região, Joselita Santos afirma que a praça voltou a reunir diferentes públicos em um ambiente de convivência e lazer. “É um ponto de lazer e de encontro para toda a comunidade. Aqui vêm crianças, idosos, famílias. Inclusive, participo das atividades realizadas no espaço. Tem projeto multifuncional, atividades esportivas e muita convivência. A gente sempre encontra os amigos, conversa, faz caminhada. Isso aproxima a comunidade”, destacou.
A também moradora Inês Alves relembra que, antes da revitalização, muitos moradores evitavam circular pelo local durante a noite por conta da insegurança.“Antes nós não tínhamos esse tipo de lazer aqui. Ficávamos até com medo. Hoje está tranquilo, muito mais seguro. Foi a melhor coisa que fizeram, porque trouxe a população de volta para ocupar esse espaço”, relatou.
O comerciante Adenir Alves, que trabalha vendendo mercadorias em diferentes praças da capital, disse ter se surpreendido com a estrutura implantada na Praça Dom José Thomaz. “Foi uma reforma de verdade. Nunca tinha visto uma estrutura assim aqui. Está tudo muito organizado e bonito. Mas também é importante que a população faça sua parte e conserve, porque esse patrimônio é de todos nós”, afirmou.
Quem também acompanha de perto a rotina da praça é a moradora Jussara Feitosa, residente da região há mais de 40 anos. “Já acompanhei várias reformas aqui, mas agora o padrão realmente ficou elevado. Está muito bonito. Eu sempre procuro orientar as pessoas a cuidarem do espaço, porque esse patrimônio é do povo”, disse.
A praça também passou a integrar a rotina de famílias da região. Simone Oliveira conta que o filho faz questão de frequentar o local após a escola.“Todo mundo está elogiando a praça. Nos fins de semana fica lotada e, durante a semana, as crianças saem da escola e querem vir brincar aqui. É um espaço importante para todas as idades. Mas também precisamos conscientizar as pessoas sobre a preservação do patrimônio público”, ressaltou.
Para Tereza Cristina, a permanência desses espaços de convivência ajuda a manter viva a identidade do bairro.“O Siqueira Campos ajudou a formar artistas, movimentos culturais, lideranças políticas e histórias que fazem parte da memória de Aracaju”, concluiu.