Pacientes mudam de vida após cirurgia de redução do estômago

Saúde
28/04/2009 14h07
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Pensando em ter uma vida saudável, pacientes que pretendem se submeter a uma cirurgia de redução do estômago participam de uma série de atividades, realizadas por uma equipe de profissionais de saúde. O objetivo é prepará-los para a adoção de novos hábitos alimentares e para a mudança na forma de perceber a própria imagem. A preparação e a recuperação após a cirurgia são realizadas através de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Prefeitura de Aracaju e o Hospital Universitário (HU), local onde acontecem as consultas e o acompanhamento pré e pós-operatório.

Para ser submetido a uma cirurgia de redução do estômago, o paciente deve primeiro atender a alguns pré-requisitos. Ao marcar uma consulta com um médico endocrinologista em uma Unidade de Saúde da Família do município (USF), o interessado dá o primeiro passo para que seja avaliada a exigência básica: ser obeso por mais de cinco anos e já ter tentado emagrecer por outros métodos por um período acima de dois anos.

Outros fatores também são levados em consideração, como o risco de agravamento de doenças ligadas à obesidade. Um paciente obeso tem probabilidade muito maior de desenvolver patologias associadas ao excesso de massa corpórea, como a hipertensão - doença que deriva da variação do volume de sangue, da freqüência cardíaca, e da elasticidade dos vasos sanguíneos - e o diabetes - caracterizado pelo excesso de açúcar no sangue. A cirurgia só é realizada em pessoas obesas graves, em casos em que não não existe alternativa, e um eventual agravamento do quadro pode levar o paciente a óbito.

A paciente Catarine Ramos Farias há quatro anos sofria com crises hipertensivas e com outros transtornos relacionados à obesidade. Ao passar pela avaliação do endocrinologista, a dona de casa começou o processo pré-operatório e deu início à série de atividades e consultas que a prepararam para mudar de estilo de vida.

"No processo pré-operatório os profissionais nos ajudam a perceber a necessidade de mudar o jeito como nos alimentamos, e só liberam para a cirurgia quando percebem que estamos preparados", conta. Assistentes sociais, nutricionistas e psicólogos ajudam os pacientes antes e depois da cirurgia e asseguram que eles adotem novos hábitos.

Assistência Social

Os profissionais de assistência social são os responsáveis por cadastrar os pacientes no programa e fazer com que eles sigam o cronograma de atividades. De acordo com a assistente social Wlívia Kolming,os processos pré e pós operatório podem ser demorados devido à diversidade de fatores que determinam a eficácia da preparação e recuperação. "O nosso trabalho é verificar os eventuais impedimentos que o paciente tenha para realizar o tratamento e tentar solucionar esses problemas. Muitos deles têm uma situação socioeconômica desfavorável e não têm nem dinheiro para o transporte. Além disso, tem a questão da exposição, pois muita gente tem preconceito e os aponta na rua", descreve.

Também fica ao encargo da assistência social promover palestras educativas, que esclarecem e incentivam os pacientes a seguir o tratamento. "Procuramos trazer pessoas que já fizeram a cirurgia, conseguiram concluir o tratamento e hoje se encontram saudáveis e felizes, para que os pacientes percebam que é possível transformar os maus hábitos", afirma.

Reeducação alimentar

Com o auxílio de um nutricionista, os pacientes que pretendem passar ou que já passaram pela cirurgia bariátrica aprendem a importância da transformação dos hábitos alimentares. De acordo com a nutricionista Márcia Cândido, a maior dificuldade é fazer os pacientes entenderem que o procedimento por si só não é capaz de resolver o problema da obesidade, se ele não estiver associado à reeducação alimentar.

"Costumo dizer aos pacientes que eles vão ter que aprender tudo novamente, como uma criança. Trabalhamos técnicas de mastigação, aprendemos sobre novos alimentos, até que eles percebam que sem esses novos hábitos não poderão realizar a cirurgia ou manter o sucesso alcançado por ela", explica.

Ainda de acordo com Márcia Cândido, o Brasil está passando por um processo de transição nutricional, deixando de ser o ‘país da fome', para ser um país no qual os índices de obesidade também são alarmantes. "As facilidades da vida moderna, mesmo para quem mora no interior, fazem com que o dispêndio energético seja quase zero. As pessoas têm água encanada e não plantam mais para se alimentar. Além disso, quem se encontra em situação socioeconômica desfavorável tem o carboidrato como principal fonte de alimentação. Ainda há muita carência de elementos nutricionais como o ferro e o cálcio, encontrados em fontes de origem animal", conta.

Desvantagem

Quando submetido a uma cirurgia bariátrica, o paciente perde uma parte significativa da área de absorção do estômago. Para Márcia Cândido, o trabalho pré-operatório também busca avaliar se o paciente não tem condições de reverter o quadro de obesidade apenas com reeducação alimentar. Com a perda de parte do estômago, fica comprometida a absorção de nutrientes como a vitamina B12, proteínas e o ferro. "Esse déficit não consegue ser resgatado com a alimentação devido à capacidade reduzida do estômago. Por isso, o paciente deverá consumir até o fim da vida uma suplementação protéica que tem um valor muito alto", afirma.

Autoestima

Para o psicólogo Luis Henrique Correa, a privação do alimento calórico e as situações de constrangimento vividas na convivência social são barreiras difíceis de serem enfrentadas pelos pacientes obesos. "Eles possuem uma vida cheia de manifestações de preconceito. Além disso, os sintomas das doenças associadas à obesidade causam muito sofrimento", descreve. Nesse contexto, o papel do psicólogo é de avaliar se existe algum fator psicológico que impeça a cirurgia, a exemplo da compulsão pelo alimento.

Ainda de acordo com Luis Henrique, a maior mudança acontece depois da cirurgia, com o emagrecimento. "Neste momento, nós começamos a trabalhar a nova imagem dessa pessoa e realizar o resgate da auto-estima, para que ela continue o tratamento", afirma.

"A minha vida social mudou completamente, me sinto mais ágil, não tenho mais crises hipertensivas constantes, posso dizer que eu renasci. Antes eu não podia andar de ônibus, agora posso passear em companhia da minha família sem preconceitos que eu mesma coloquei", conta Catarine Ramos Farias, que iniciou o pós-operatório há três meses.