Apesar de toda a alegria típica dos festejos juninos, especialmente por conta do ritmo característico do período, quem vive esse ‘frisson' e é realmente apaixonado pelo forró não consegue esconder a falta sentida com a perda do grande ícone desse estilo musical: Luiz Gonzaga do Nascimento, ou simplesmente Luiz Gonzaga, o eterno rei do Baião.
A saudade aumenta porque a morte do ‘Velho Lua' aconteceu somente um mês após os festejos, no dia 2 de agosto de 1989, portanto há exatos 20 anos. Luiz Gonzaga nasceu no município pernambucano de Exu em 1912, na fazenda Caiçara. Aos 18 anos alistou-se no Exército, onde permaneceu por nove anos. Ao largar as Forças Armadas, em 1939, fixou moradia no Rio de Janeiro, passando a dedicar-se exclusivamente à música.
O reconhecimento chegou em 1941, no programa de rádio de Ari Barroso, ao executar a música ‘Vira e mexe'. Como prêmio, foi contratado pela Rádio Nacional, gravando o primeiro LP pela RCA Victor, importante gravadora da época.
A falta de Luiz Gonzaga é suprida pela execução dos sucessos que ele emplacou ao longo de mais de quatro décadas de carreira, músicas que contavam a história do Nordeste e do sertanejo em todos os seus aspectos, e que ainda hoje são sucessos nas vozes de outros grandes cantores, como Elba Ramalho, Flávio José e Dominguinhos.
A equipe da Agência Aracaju de Notícias (AAN) colheu depoimentos de alguns artistas sobre a importância de Luiz Gonzaga e o que representa esses 20 anos sem a presença do ‘Rei do Baião'. Confira o que eles disseram:
Elba Ramalho - "O maior ensinamento que Luiz Gonzaga deixou foi o respeito pela cultura popular e nordestina. Ele se foi fisicamente, mas sua alma permanece no artista que cultiva seu trabalho e em todas as manifestações juninas espalhadas por todo o Nordeste".
Flávio José - "São 20 anos de saudade, 20 anos de uma lembrança viva de Luiz Gonzaga, saudade porque até hoje ninguém conseguiu ocupar o espaço que ele deixou, pois tudo começou com ele, que era completo".
João da Passarada (vocalista da banda Passarada do Ritmo) - "Além de ser minha fonte de inspiração, Luiz Gonzaga é sinônimo do legítimo e autêntico forró. Sem ele nada disso estaria acontecendo. Não existiria baião. Nenhum de nós estaria aqui fazendo música dessa maneira. Ele se foi, mas seus ensinamentos persistem após esses 20 anos".
Dominguinhos - "Posso dizer que essa é a maior lacuna que a música brasileira sofreu. 80% da autenticidade musical do Nordeste se foi com ele. A sorte é que artistas como eu, Elba Ramalho, Flávio José, Clemilda, Rogério, Sergival e outros tantos nordestinos mantêm-se fiéis ao legado que ele deixou. São 20 anos de uma saudade imensa".
Lourinho do Acordeon - "Luiz Gonzaga é muito mais do que uma lenda. Ele cantou e encantou gerações. Sua ausência ainda é muito sentida por nós, que somos seus eternos discípulos. Ouço sua música desde menino, me inspirei em sua obra e hoje, além de cantar o xote, o baião e o pé-de-serra tão difundidos por ele, os transmito para o meu filho de 16 anos de idade, que já tem no ‘Véio Lua' a maior referência do forró".
Rogério - "Parece que foi ontem sua partida. Mas Luiz Gonzaga virou santo, não milagreiro, mas um santo forrozeiro, que olha e abençoa todos os seus seguidores, os que cultivam as sementes musicais que ele plantou. Sua obra é imortal e, graças a Deus, tem sido passada para novas gerações após essas duas décadas da sua ausência".
Amorosa - "Sou uma fiel seguidora da linguagem musical que ele criou e defendeu, e acredito que as sementes que ele deixou irão sempre dar bons frutos. Respeito todos os ritmos, mas devemos ter consciência de que o forró é único e não precisa de parafernália eletrônica. O legado de Luiz Gonzaga sobreviveu nesses 20 anos após sua partida e irá se perpetuar".
Sergival - "Analiso esses 20 anos sem Luiz Gonzaga de duas maneiras. A primeira é que seus ensinamentos continuam sendo resgatados por gente nova, como fez Gilberto Gil, Caetano Veloso e alguns outros nomes da MPB. A segunda ótica é que, apesar de todo o modismo do forró eletrônico, a obra do ‘Rei do Baião' permanece com o mesmo frescor de quando foi criada. Os modismos vêm e vão, o que fica é a originalidade e a qualidade do autêntico forró criado por ele".
Adelmário Coelho - "Se não fosse por Luiz Gonzaga, nenhum de nós estaria aqui. Ele apenas mudou de lugar, mas sua alma permanece em cada evento junino onde o legado da sua obra é tocado e reverenciado".
Alceu Valença - "Forró eletrônico é o que eu faço. E quem me disse isso foi o próprio Luiz Gonzaga. Só ele tinha autoridade para dizer o que é e o que não é forró. Segundo ele mesmo, forró eletrônico não era a simples incursão da guitarra nos acordes das canções, mas a preservação do ritmo e raízes verdadeiramente nordestinas. Além de ser referência musical, é dele o know-how de tudo que diz respeito ao forró".