Por Gabriel Cardoso
Por volta das 10 horas da manhã de uma sexta-feira, em algum lugar do Ceará, atende o telefone José Domingos de Moraes, o cidadão, no conforto de sua privacidade. Logo, fica claro que José Domingos e Dominguinhos são a mesma pessoa. Atende diretamente, sem rodeios. A voz grave é puxada por um ritmo suave, tranquilo. É ele mesmo que responde todas as perguntas e conta cada passo de sua trajetória, com calma e atenção.
O jeito sereno de Dominguinhos é capaz de transmitir paz onde quer que ele esteja. Assim como nos shows, em suas entrevistas essa característica salta aos olhos. A origem de sua tranquilidade pode residir no fato de Dominguinhos ser homem do campo, ‘agresteiro', e também sertanejo, por que não? Rodou incansavelmente pelas brenhas do Nordeste e depois surgiu para o país inteiro. Aprendeu com o pai, Chicão, e com Luiz Gonzaga.
Hoje ele é o mestre, fonte inspiradora para muitos. O talento transbordante para a música e para a poesia popular, e as experiências que a vida lhe deu, o tornaram sábio. O homem do campo conseguiu abrir as portas do mundo. Serenidade, sensibilidade e outros traços de personalidade, facilmente identificados na figura do artista Dominguinhos, encaixam-se perfeitamente na figura de um professor, de um grande exemplo.
O início de tudo
Ainda bem pequeno, o sanfoneiro acompanhava o pai Chicão, tocador das famosas sanfonas de oito baixos, eternizadas na música ‘Respeita Januário', de Luiz Gonzaga. Os irmãos, Moraes e Valdomiro, iam junto. Eles dois e Dominguinhos, na época com sete anos, formaram um grupo musical. O ano era 1948, quando Gonzagão viu o trio, chamado de ‘Os Três Pinguins', tocando na fria Garanhuns, no agreste pernambucano, cidade natal de Dominguinhos, onde as temperaturas chegam a 12ºC no inverno.
Naquele tempo, o filho ilustre de Garanhuns era conhecido como Nenê e, no trio, tocava pandeiro em vez da sanfona que o consagrou. Mesmo assim, Mestre Lua se encantou pelo garoto, não tirando da cabeça a ideia de viajar com ele para o Rio de Janeiro. Mas isso só aconteceu em 1954, quando Dominguinhos tinha 13 anos. "A vontade de mostrar minha habilidade me fez aceitar o convite de Luiz Gonzaga e ‘arribar' para o Rio de Janeiro de pau-de-arara", conta Dominguinhos.
Barreiras transpostas
Na Cidade Maravilhosa, Dominguinhos não encontrou um mar de rosas. Foi morar no subúrbio de Nilópolis, região metropolitana do Rio. Lá, o filho de Mestre Chicão teve que se virar para conquistar seu espaço. Precisou, inclusive, tocar outros gêneros musicais, uma vez que nos anos 60 o baião começou a entrar em declínio.
"Isso fez com que minha relação com a sanfona se estreitasse. Passei a dominar melhor o fole. Cheguei a tocar até em regionais", explica. Os regionais eram conjuntos musicais, famosos na Era do Rádio, formados a partir dos trios de choro (flauta, violão e cavaquinho). A esse trio foram agregados diversos instrumentos. E foi assim, experimentando, que Dominguinhos expandiu seu horizonte, mesmo antes de se envolver com os tropicalistas e outros grandes nomes de MPB, o que traz à tona outra marcante característica deste artista: a coragem.
De personalidade forte, o poeta-sanfoneiro de Garanhuns conseguiu não apenas aprender com seus mestres, mas também trilhar uma carreira inovadora e singular, dentro do que se propôs a fazer. Em nenhum momento se escondeu atrás da figura de Luiz Gonzaga. "Cada um tem seu potencial e a humildade é importante para conhecê-lo. Sempre conheci o meu lugar, mantive os pés no chão e tratei todos com quem me envolvi com respeito. Assim, conheci os meus limites e o meu potencial", ensina o mestre de Garanhuns.
Participação
Hoje Dominguinhos transmite sua experiência. Sua principal seguidora tem sido a filha e cantora Liv Moraes, que acompanha o pai em várias apresentações. No dia 23, Liv fará mais uma participação no show do pai, em uma das noites mais aguardadas do Forró Caju 2010. "Ter sido convidado para participar mais uma vez do Forró Caju foi uma honra. Poder tocar ao lado de minha filha, Liv Moraes, então é maravilhoso. Gostaria de agradecer à Prefeitura de Aracaju, que está de parabéns pelo sucesso alcançado pela festa ao longo dos anos".