Mercado é reduto de crenças e religiosidade

Agência Aracaju de Notícias
31/07/2010 12h20
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Por Najara Lima

Anderson Batista, conhecido como ‘Toquinha', ou ainda ‘Dando', é uma figura conhecida no Mercado Thales Ferraz. Há 26 anos, ele integra uma rede bastante peculiar de comerciantes que dividem as bancas do local. São homens e mulheres que trabalham com a venda de ervas que servem a duas finalidades principais: a medicina popular e a religiosidade.

Em sua banca, ao invés dos famosos queijos, castanhas, doces e biscoitos vendidos por todo o mercado, o que se vê são diversas plantas. Para uns, ele indica ervas, receitas caseiras que servem para aliviar a dor do corpo. A outros, Dando oferece um caminho para curar as feridas da alma ou, ainda, para auxiliar em seus trabalhos religiosos.

O primeiro contato do comerciante com a arte de lidar com ervas foi com sua mãe, que também as vendia no mercado. Hoje, esse é um dom preservado por toda a família. Além de Anderson, sua irmã e seu sobrinho também possuem bancas no local, todos com o intuito de levar à população o saber popular relacionado ao uso de ervas.

Depois de ter tido acesso à base desse conhecimento no seio familiar, ele fez diversos cursos e leituras aprofundadas, tudo por conta própria. Hoje, o comerciante dá palestras e, recentemente, concluiu um curso de extensão em Fitoterapia, oferecido pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Através do curso, Anderson obteve noções importantes sobre os aspectos biológicos e químicos das plantas. "Os acadêmicos, até o final dos anos de 1980, não aceitavam muito o saber popular. Atualmente, há uma abertura muito maior por parte deles com relação ao nosso conhecimento", conta ele.

Medicina popular

A indicação de amigos e familiares, o conhecimento a respeito do poder das ervas e, especialmente, o preço baixo são os principais motivos que levam as pessoas a procurarem o auxílio de Dando. "Muitas vezes, um cliente gasta aqui em nossa banca cerca de R$ 10 para curar uma doença que, em um tratamento convencional, com um médico, despenderia R$ 500, R$ 600", afirma.

A erva-doce, o sambacaitá e a malva branca são algumas das plantas medicinais mais vendidas na banca do comerciante. "Uma loja como essa sem erva-doce é o mesmo que um bar sem cerveja. Sempre que nasce um bebê, é provável que tenhamos um novo consumidor para esse produto", diz. Isso porque a planta, segundo ele, auxilia no desenvolvimento da mama, além de ser útil na digestão e para reduzir a incidência de gases nos recém-nascidos.

O sambacaitá tem propriedades antiinflamatórias e é bastante procurado pelas mulheres, principalmente por aquelas que possuem inflamações nos ovários. Já a malva branca é cicatrizante e muito utilizada para fazer bocejo quando se extrai um dente. Já o óleo de pequi, fruto nativo do cerrado brasileiro, é indicado para dores musculares e micoses, enquanto o óleo de copaíba funciona como antiinflamatório.

Contra-indicação

Ao contrário do que muita gente pensa, as ervas não podem ser utilizadas sem o conhecimento necessário. "As pessoas acham que remédio natural não tem contra-indicação, o que não é verdade. Eles têm sim, claro que menos que os industrializados, mas têm", declara Anderson.

Ele defende que é necessário, antes de utilizar um remédio natural, conhecer a sua posologia. "Existem algumas ervas que não podem ser ingeridas por pessoas que têm problemas coronários, por exemplo. Outras não podem ser usadas por mulheres grávidas, por terem efeito abortivo", explica.

Anvisa

O comerciante conta que a mídia, através de programas como o Globo Rural, transmitido pela Rede Globo, impulsiona a procura por determinadas ervas que vêm de fora do estado. "Isso faz com que tenhamos que adquirir também essas plantas. Mas, em geral, seja por bairrismo ou como forma de proteger a cultura sergipana, valorizamos as ervas daqui", revela ele.

Anderson conta, ainda, que cerca de 70% das ervas aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são oriundas das regiões Sul e Sudeste do Brasil. "Por essa razão temos que defender as ervas do nosso Nordeste", assinala.

Crença

Seguidor da umbanda kardecista, Anderson assume que a imensa maioria da sua clientela é formada por adeptos dos diversos cultos afrobrasileiros. "Costumo dizer que o sergipano é um ‘macumbeiro' incubado. Muita gente frequenta os centros de umbanda e candomblé, mas não gosta de se expor", conta o comerciante.

Cada uma das ervas vendidas no box de Anderson tem uma determinada finalidade para os religiosos. A arruda, por exemplo, é famosa por espantar o mau olhado, também conhecido como ‘olho gordo', além de ser bastante utilizada para o chamado banho de descarga.

O ‘abre-caminhos' tem um nome autoexplicativo. Já o cipó de alho, que recebe esse nome por possuir um forte cheiro de alho, serve tanto para o banho de descarga quanto para medicar indivíduos que têm problemas de sinusite e bronquite.

Além das ervas, Anderson também comercializa artesanatos e outros produtos utilizados em simpatias, como velas com formatos de partes e órgãos do corpo humano. "As que têm a forma de um órgão sexual masculino, por exemplo, tem o intuito de fazer com que o parceiro seja sexualmente exclusivo dela", explica ele.

Fazedor de santos

Outro personagem curioso que habita o Mercado Thales Ferraz é o fazedor de santos Jairo Dias. Sua arte é pouco divulgada e praticada na cidade, e foi desenvolvida por ele com base em um processo autodidata há cerca de dez anos.

"Aprendi sozinho, por vontade própria. Nunca vi ninguém fazendo esse tipo de artesanato", conta com simplicidade o artesão, enquanto conclui a pintura de um santo chamado de Preto Velho. Bastante conhecido por quem frequenta os centros de umbanda, o santo é um dos mais vendidos por Jairo. "Vários pais-de-santo já vieram aqui e me contaram que receberam de presente um Preto Velho feito por mim", diz.

Entre os santos católicos, os de maior saída na banca de Jairo são Santo Antônio e São Francisco. "Faço mais produtos sob encomenda, de todos os tamanhos e cores. Geralmente, o cliente traz uma foto retirada da internet e pede para que eu faça igual", afirma.

Sem preconceito

Todo o processo de produção é feito a partir das mãos de Jairo, que trabalha com argila sem o uso de nenhuma forma ou modulador de massa. Para aqueles que solicitam uma grande quantidade do mesmo santo, o artesão faz formas artesanais e reproduz as unidades, em seguida.

Os santos, esculpidos por Jairo no meio da agitação do mercado, custam entre R$ 5 e R$ 100, a depender do tamanho, e são responsáveis pelo sustento da família do artesão. "Pra fazer essa arte, é necessária muita paciência, principalmente tendo como atelier um lugar como o mercado, bastante barulhento. Muitas vezes eu me desconcentro, claro, mas até já me acostumei com esse clima", declara.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, Jairo não é seguidor do catolicismo, da umbanda ou do candomblé. Grande parte da sua família é evangélica e, por isso, ele frequenta a Igreja Batista. "Muita gente critica o meu trabalho, diz que eu não devia fazer santos, que devia optar por outro tipo de artesanato. Mas eu não ligo pra isso, não tenho preconceito. Eu creio em Deus e, pra mim, ele está acima de tudo", defende o artesão.

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