Negritude comanda terça-feira de carnaval

Funcaju
09/03/2011 09h45
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Foi nas proximidades do Centro da cidade que dois importantes blocos desfilaram e encantaram o povo, exibindo todo o orgulho de sua identidade. O ‘Quilombo’ e o ‘Crilliber’ têm em comum o fato de serem dois antigos blocos afro sergipanos muito engajados com projetos sociais que trabalham a fundo a questão da identidade afro brasileira.

Ambos também trabalharam em sua temática a feminilidade. Aproveitando a coincidência que levou o dia de carnaval a ser também o Dia Internacional da Mulher, tanto ‘Quilombo’ quanto ‘Crilliber’ souberam explorar a questão sem cair em obviedades, mas usando elementos da cultura africana para chegar ao seu propósito, que era homenagear a mulher como um todo, sem particularidades de cor, raça, religião ou região.

‘Quilombo’

Surgido no bairro da Caixa D’Água, o projeto 'Quilombo' começou suas atividades há 25 anos, sendo considerado o mais antigo bloco afro de Sergipe. Desfilando pelas ruas da capital sergipana desde então, o bloco tem a grande responsabilidade de continuar uma antiga tradição. Para Ligia Borges, presidente do bloco, o carnaval aracajuano está voltando a crescer, após passar vários anos com dificuldades para ser realizado.

“Ao longo dos meus vinte anos no projeto ‘Quilombo’, tenho visto muitas conquistas e deficiências, mas é inegável que nos últimos cinco anos temos recebido um forte apoio para podermos nos expressar”, disse Ligia, que em seguida parabenizou a Prefeitura Municipal de Aracaju (PMA) por reconhecer a importância do projeto.

Para exemplificar o quanto os desfiles têm atraído a atenção da população, a presidente do Quilombo comentou que anos atrás as camisetas do bloco sobravam aos montes, enquanto que, desde 2005, a demanda tem sido tão grande a ponto de não haver camisas para todos que querem participar uniformizados.

Inspirada pela cultura afro brasileira, a temática desse ano foi uma homenagem ao orixá Oxum, deusa da riqueza, do amor, da prosperidade e da beleza, além de padroeira da gestação e da fecundidade. Sendo assim, é a divindade que melhor representaria o sexo feminino no dia 8 de março. “Por estarmos comemorando nossas bodas de prata, Oxum também é a entidade religiosa mais adequada para homenagear, visto que ela é deusa dos metais preciosos, tais como o ouro, a prata, e o bronze”, completou Ligia. São 25 anos que representam uma forte união entre os integrantes do projeto.

O bloco teve início na avenida João Ribeiro, no bairro Santo Antônio, alegrando centenas de foliões através da banda Quilombo, que surgiu dentro das oficinas musicais organizadas pelo projeto. Levando a animada multidão até o Terminal do Mercado, os vocalistas Neném, Jessi, Carol e Dalida cantaram composições da banda e também homenagearam outros blocos afro brasileiros na companhia de uma forte percussão que tocava em cima do trio elétrico.

‘Crilliber’

Enquanto o ‘Quilombo’ desfilava no Santo Antônio, outro bloco afro animava a população aracajuana, dessa vez no bairro Cirurgia. O ‘Crilliber’ divertiu muitos foliões da vizinhança fazendo uma homenagem às ‘Candaces’: antigas guerreiras africanas que lutavam pelos direitos e pela justiça da sua tribo, na cidade de Meroe (divisa do Egito com o Sudão), na Antiguidade.

O percurso foi animado pela banda de mesmo nome do bloco, homenageando as entidades da cultura africana, enquanto percussionistas tocavam harmoniosamente. Entre algumas tradições que o grupo segue, há a escolha da ‘Beleza Negra’ do ano. A escolhida pelo público, Natália Santos, ficou muito contente com o prêmio e exaltou sua felicidade durante o desfile.

O ‘Crilliber’ surgiu em 1982 na Moloca, a comunidade quilombola localizada no bairro do Cirurgia, e sua nomenclatura é a mistura das palavras ‘criança’ e ‘liberdade’. Idealizada por Mãe Madalena, sacerdotisa do município de Laranjeiras, o projeto teve início quando um grupo de moradores da comunidade começou a ajudar as crianças da região, oferecendo alfabetização, oficinas de dança, percussão e promovendo debates que discutiam a identidade afro-brasileira. Em 1987, após a morte de Mãe Madalena, seu neto, Luiz Bomfim, assumiu a organização do ‘Crilliber’ e deu início ao bloco que desde então desfila nas ruas de Aracaju.

Para Luiz, ver o projeto de sua avó continuar firme e forte é animador. “O trabalho do Crilliber não pára. Logo depois do carnaval, voltamos às aulas, com oficinas e palestras. Nossa mais recente iniciativa é o curso de informática básica que estamos ministrando. A alfabetização e as oficinas de percussão e capoeira, além dos debates, continuam normalmente”, destacou o diretor-fundador.

Ao término do desfile, Luiz já revela qual será a temática do bloco no carnaval de 2012: ‘Da África à São Cristóvão’. “O município de São Cristóvão tem forte influência da cultura africana em sua formação. Mesmo que, atualmente, essa questão não costuma ser pautada, a primeira capital de Sergipe foi erguida pelos pilares dos costumes africanos e será sob essa ótica que o bloco vai se expressar no ano que vem”, comentou.