Por Catarina Schneider
O São João de Aracaju, enquanto uma festa popular, segue a evolução natural que vem sendo acontecendo na sociedade. Originárias da Europa, essas festas chegaram no Brasil ainda no período colonial e agregou valores das culturas portuguesa, africana, espanhola e indígena, dando características diferenciadas a eles. Assim, no final do século XVIII e início do XIX, os festejos juninos já estavam presentes na nossa cultura, com alguns aspectos semelhantes aos de hoje, como o uso da fogueira, a homenagem aos santos e as quadrilhas.
No século XIX, período em que o Brasil se torna grande importador da cultura estrangeira, o forró surge e se torna o principal ritmo da época junina. Esse período, mesmo no tempo colonial, sempre foi festejado pelos brasileiros, tendo, com o passar dos anos sua forma de festejo modificada.
Assim, a cultura junina, desde o seu surgimento, sempre foi mais forte no Nordeste, guardando essa característica até hoje. Em Aracaju, os festejos juninos foram trazidos por pessoas que vieram dos interiores para tentar uma vida melhor na capital e implantaram na capital muito da sua cultura interiorana.
Mudanças na tradição
A reunião das famílias em volta da fogueira, implantação do mastro no meio da rua e a troca das guloseimas de São João, como o manauê e bolo de milho, entre os vizinhos, vem perdendo a sua força. "Aracaju foi ficando com cara de cidade grande e perdendo alguns costumes de cidade de interior", explica o historiador.
A tradição das quadrilhas, que também foram adaptadas pelo povo e transformaram-se em uma das marcas dos festejos juninos, também passaram por profundas mudanças, tornando-se cada vez mais requintadas. "Elas incorporaram o sentido de concursos, tendo que seguir uma série de pontos a serem analisadas, trazendo enredos e vestimentas que fogem da tradição", explica Mário.
Forró Caju
São João é uma mistura de ritmos, culturas e tradições de vários povos que passaram e deixaram um pouco da sua essência. O historiador Mário Resende explica que não há uma pureza significativa a preservar. "O homem junto com a cultura muda, e ao mudar, ele vai incorporando,descartando e readaptando alguns elementos" explica ele.
Com o surgimento do Forró Caju, em 1993, Aracaju traz uma grande mudança para os festejos juninos, pois eles deixam de ser uma festa de família, para ser do povo. Assim, a capital passa na frente de outras cidades que eram típicas do forró, como Areia Branca, pois começam a trazer atrações nacionais para a festa. "É a partir dele que se cria a idéia que Aracaju seria a capital do forró, rivalizando com outras cidades marcadas pelo forró, como Campina Grande", explica ele.
Mudança na música
No campo da música, houve uma mudança muito grande do ritmo e das letras com a inserção do forró eletrônico. "Não vejo isso com preocupação, pois sou adepto a idéia de que cultura muda, pois não há ritmo que fique estático durante 200 anos. O forro eletrônico veio num momento que o forró, a nível nacional, estava decadente", conta Mário.
Porém, os grandes ícones do forró tradicional, como Inês Caetano de Oliveira, conhecida como Marinês, Targino Gondim, Dolores Duran e o nordestino Luiz Gonzaga, eternizaram o forró pé de serra. "O auge do forró foi nos anos 50 e ele já nasceu como música do povo, que fala de sentimento e de fácil memorização", explica o professor.
Mudança no traje
As tradicionais estampas dos tecidos utilizados nos festejos juninos, de cores fortes e vivas, deixavam a quadrilha coloridas e enchiam os olhos das pessoas que iam apreciar as apresentações. A chita, tecido utilizado nas tradicionais vestimentas de São João, perde o seu valor com as mudanças de tradições. "Hoje em dia, as meninas compram vestidos requintados, na sua maioria sem muita cor", declara Mário.
Assim, precisamos retomar algumas tradições juninas para preservar e valorizar a nossa cultura. "São João é momento das pessoas reviverem a sua cultura e não é preciso ter medo das mudanças, pois isso faz parte da cultura humana, e o importante é preservar a essência, que vai além da indumentária, da roupa e da música que se canta", explica.
Resistência
O povoado de Areia Branca, localizado no bairro Mosqueiro, ainda mantém a cultura do século XIX. Durante a época junina, as pessoas se reúnem em volta das fogueiras, trocam comidas típicas com os vizinhos e revivem as comemorações históricas, como o Reisado e a Festa do Mastro. "Esse é um dos poucos grupos que resistem as nossas tradições e revivem nessa época os antigos festejos juninos", diz o professor.