Deficientes visuais mudam de vida com apoio da PMA

Agência Aracaju de Notícias
15/12/2011 16h33
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por Iuri Max

O Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual (CAP) foi criado há 13 anos com o objetivo de desenvolver uma série de habilidades fundamentais para a otimização do dia-a-dia de pessoas que convivem com diversos graus de cegueira. A instituição, que é mantida pela Prefeitura Municipal de Aracaju (PMA), nos últimos anos tem se tornado referência em todo o estado. Atualmente cerca de 140 pessoas da capital e do interior encontram no centro a estrutura e atenção que lhes permite recuperar a autoestima, conquistar a autonomia e alcançar seus objetivos profissionais.

Desde que começou a frequentar o CAP, há dois anos, Geilza Soares dos Santos testemunhou uma mudança completa em sua vida. Hoje ela se movimenta com muito mais facilidade e segurança graças às aulas de orientação e mobilidade. Com as lições de braile aprendeu a ler. No laboratório de informática ela ampliou seus horizontes através do acesso à internet e adquiriu às noções que hoje facilitam sua inclusão no sistema de ensino regular. Estudando o soroban ela tem desenvolvido seus conhecimentos matemáticos e raciocínio lógico. Além do aprendizado, a diversão e a socialização também lhe foram oportunizadas pelas aulas de música e educação física.

No CAP os alunos com pouca ou nenhuma visão encontram o estímulo para resgatar seus sonhos e projetos e também os meios que auxiliam na sua realização.  "Foi graças ao centro que realizei o meu maior sonho, que era aprender a ler", revela Geilza. A aluna sai da cidade de Lagarto e vem à capital para as aulas do CAP todas as terças e quartas. Segundo ela, esse acompanhamento tem transformado sua vida de maneiras ainda mais amplas do que imaginaria.

"Desde que passei a frequentar o centro eu sai dos braços da minha família, me casei, fui morar em uma outra cidade, realizei sonhos e já tenho outros planejados para o futuro", conta a dona de casa, que, além de gerenciar o lar em que vive com o marido e dois enteados, está concluindo e ensino fundamental e tem como meta chegar a universidade, onde deverá cursar Comunicação Social. "O centro me tornou uma pessoa bem mais independe e me abriu muitas portas. Aqui eu ganhei a liberdade de voar, e bem mais alto do que esperava", declara.

Desenvolvimento

As dificuldades de se criar um filho cego multiplicaram-se na vida de Maria Aperecida Bispo em função do autismo diagnosticado em seu filho, Rodrigo Gustavo. Os dois problemas médicos somados dificultaram de maneira ainda mais intensa o aprendizado e a comunicação do garoto desde a tenra infância. A mãe conta que a passos lentos tem sentido as mudanças se manifestarem em Rodrigo, que é atendido pelo CAP há cerca de sete anos. "Até pouco tempo atrás ele não sabia se comunicar e hoje ele já está falando. Mesmo que ainda não consiga falar frases inteiras ele já interage melhor com as pessoas e aos poucos vai ficando menos dependente de mim", conta a dona de casa que vive no bairro Santos Dumont.

Segundo Maria Aparecida, foram as aulas de música que despertaram o jovem Rodrigo Gustavo para o mundo que o cerca. "Aqui no centro a gente descobriu o amor dele pela música. Ele não é capaz de dialogar normalmente, mas consegue cantar músicas inteiras", explica. "É graças a esse amor que ele desenvolve outras habilidades. Para manter o interesse nas aulas de arte, por exemplo, ele canta sobre aquilo que está desenhando", esclarece a mãe. "O centro funciona como uma terapia tanto para ele quanto para mim. Sempre que saio daqui eu me sinto um pouco mais feliz do que quando entrei. Não tem preço que pague a ajuda e o carinho que a equipe do centro dá para o meu filho", agradece Maria Aparecida.

Superação

Assim como Rodrigo Gustavo, Edileuza dos Santos Pereira também tem encontrado a diversão nas aulas de música. Entre as diversas atividades que desempenha no centro, os ensaios e apresentações do coral são os momentos que mais lhe trazem satisfação. Além de estimular a interação entre os alunos do CAP, o coral formado por alunos também expõe o trabalho da instituição através de apresentações realizadas em diversos espaços públicos. Iniciativas como essa, segundo Edileuza, são fundamentais para restaurar o ânimo e a autoestima de pessoas que, como ela, perderam a visão depois de ter enxergado por vários anos.

"Perder a visão é uma coisa muito difícil, e como muitos não conseguem lidar bem a situação é comum nós recebermos pessoas deprimidas", conta Joana D'Arc, diretora do Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual. "É imprescindível promover atividades em que esses alunos possam interagir com aqueles que passaram pela mesma situação para que eles percebam que é possível recuperar o ânimo e superar grande parte das dificuldades que a cegueira impõe", destaca Joana.

A perda de visão de Edileuza aconteceu de forma lenta e por isso ela pôde se adaptar ao poucos e conseguiu aceitar bem a situação. Sabendo que esse não é o caso da maioria, ela tem ajudado os colegas nesse processo. "Aqui a gente tem o benefício das aulas e a apoio dos professores, mas também os alunos estão sempre dando força um ao outro. Saber que a gente pode contar com outras pessoas é muito bom. Sem contar que isso é muito importante para que a gente consiga enfrentar as dificuldades sem perder o ânimo", ressalta. "O CAP é uma verdadeira família", completa Edileuza.

Segurança

Esse ânimo de Edileuza, e da maioria dos atendidos pelo CAP, fica ainda mais evidente durante as aulas de educação física. Segundo a diretora da instituição, além de estimular a interação em grupo e o exercício do corpo, essas aulas também, somadas aos resultados obtidos com as lições de orientação e mobilidade, contribuem para a recuperação do equilíbrio e o desenvolvimento da autoconfiança necessários para o convívio social e a movimentação segura nos mais diversos espaços.

"Quando a pessoa perde a visão, em geral, ela perde também o equilíbrio e desenvolve em si um receio muito grande de se movimentar", esclarece Joana. "Esse medo de se mover começa a ser perdido graças a essas aulas. Aos poucos os alunos vão construindo a confiança necessária para se movimentar sem conhecer exatamente o que esperar do próximo passo. É por isso que durante a educação física a gente vê os alunos se exercitando, dançando e se mexendo despreocupados e inclusive sem se chocar uns nos outros", explica.

Atendimento personalizado

Para garantir que as particularidades de cada um dos alunos sejam sempre ponderadas durante o processo de aprendizado, grande parte das aulas promovidas pelo CAP são individualizadas. Essa característica é apontada coma uma das principais responsáveis pela melhora evidenciada entre os atendidos pelo centro, especialmente entre as crianças mais novas. O estreitamento das relações leva à superação da vergonha e a um trabalho que, sendo mais específico, torna-se melhor como um todo.

A família do pequeno Flávio Victor, de quatro anos, por exemplo, já consegue notar uma série de melhoras no dia-a-dia do garoto graças às aulas do centro, sobretudo a de ‘estimulação precoce'. Flavinho, como é chamado pelos professores, já anda só por locais desconhecidos graças à superação do medo de caminhar por conta própria, e também já consegue reconhecer figuras e objetos através do toque. Outra preocupação pedagógica do centro é de iniciar as crianças à leitura através do pré-braile. E há ainda o cuidado de ensinar também o alfabeto convencional, que em diversos momentos no futuro poderá mostrar-se como uma necessidade.

O pai do garoto, o lagartense  José Reginaldo do Nascimento, reconhece os empecilhos que a cegueira impõe a seu filho, mas também percebe no acompanhamento fornecido pelo CAP a oportunidade de Flávio Victor crescer enquanto adquire a liberdade e uma série de conhecimentos essenciais para que alcance um futuro melhor. "Ele não tem mais medo de andar e por isso hoje ele brinca muito mais. Ele está aprendendo muito aqui, já começou a aprender as vogais, por exemplo. Ele só tem quatro anos, mas aprende rápido, por isso eu sei que ele vai se desenvolver muito aqui no centro", ressalta esperançoso.

Esperança

Do estímulo dos sentidos nas crianças à superação das adversidades, sobretudo para a entrada no mercado de trabalho, vivenciadas especialmente pelos adultos, as aulas do CAP já se mostraram, e ainda se mostram, como fundamentais para centenas de pessoas com pouca ou nenhuma visão de todo o estado. O Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual de Aracaju é o primeiro do país mantido por uma administração municipal, mas é no impacto na vida dos seus alunos que está o seu maior mérito.

"Os deficientes visuais hoje não ficam mais guardados dentro de casa. Cada vez mais a gente vê cegos nos mais diversos espaços; andando na rua, pegando ônibus, fazendo faculdade ou passeando no shopping. E é muito gratificante saber que a grande maioria deles passou pelo CAP", destaca a diretora da instituição. Segundo Joana D'Arc uma das grandes metas do Centro é tornar-se mais conhecido pela sociedade sergipana para que assim possa atender e auxiliar um público maior, e que ainda não conhece o trabalho desenvolvido no local.

"O CAP é um forte auxílio aos deficientes visuais na luta por exercer de forma plena sua cidadania", afirma Joana. "Aqui eles aprendem a ler, a usar o computador, a fazer sozinhos as atividades do dia-a-dia. Graças às habilidades desenvolvidas aqui muitos deles encontram o estímulo para terminar os estudos e conseguem a inserção no mercado de trabalho. Já mandamos inclusive muitos dos nossos alunos para a faculdade", assegura a diretora. "Para os deficientes visuais o CAP é uma luz no fim do túnel que, mesmo sem enxergar, eles sabem que está lá deixando-os cada vez mais próximos da realização dos sonhos", conclui.