A educação escolar, muitas vezes, ultrapassa as paredes da sala de aula. Esta máxima tem sustentação nas ações executadas nas escolas, a exemplo do que vem sendo realizado pela Secretaria Municipal da Educação (Semed) em parceria com o Tribunal de Justiça de Sergipe, por meio da Coordenadoria da Mulher. Neste projeto, ao ultrapassar a sala de aula, a educação absorveu outro ambiente: as paredes externas das unidades de ensino. Com cores e contrastes vibrantes, alunos encontraram na grafitagem uma maneira de expressar suas emoções e romper com a homogeneidade e o silêncio das paredes.
No último sábado, 7, alunos de quatro escolas da rede municipal de ensino deram continuidade ao projeto "Grafitagem nas escolas", uma ação que tem o objetivo de conscientizar a comunidade escolar sobre a violência doméstica e familiar. "Estou muito emocionada com o envolvimento das escolas. Esse engajamento dos alunos, professores e funcionários no combate à violência contra a mulher é uma lição de cidadania", destaca a Adelaide Maria Martins, juíza de direito, responsável pela Coordenadoria da Mulher do TJ/SE.
A Escola de Ensino Fundamental Diomedes Santos Silva, localizada no bairro Santa Maria, foi uma das unidades de ensino que recebeu a execução do projeto. "A escola precisa estar próxima da comunidade. Quando iniciamos esse projeto fizemos exatamente isso. Discutimos o tema da violência contra a mulher e oferecemos aos alunos a oportunidade de conhecer o universo da arte através do grafite", conta a diretora Nélida Carvalho.
A mudança na Emef Diomedes não aconteceu somente na aparência. Entre as paredes marcadas pelos traços do spray, a arte mostrou sua principal função: educar pela motivação e exemplo. Jefferson Santos, aluno do 7º ano, em um momento de autocrítica, inspirou-se na arte das ruas para dizer que "agora é outra pessoa". "Depois que começou a oficina de grafite eu fiquei mais interessado em tudo. Até na sala fiquei tenho mais atenção na aula. Eu tinha fama de bagunceiro, mas agora eu mudei, pode perguntar a qualquer pessoa", revela, apontando com orgulho a arte que fez no pátio da escola.
O artista Dext, grafiteiro há nove anos, foi um dos responsáveispelo trabalho de colocar o spray nas mãos dos alunos e desmistificar o conceito, ainda marginalizado, desta manifestação artística. "Muita gente ainda confunde grafite com pichação. Grafite é arte que se manifesta nas ruas, principalmente nos espaços públicos. Não é a toa que estamos fazendo esse trabalho com a Secretaria da Educação e o Tribunal de Justiça", disse. "Além de tudo isso, esse projeto tem potencial para revelar algum grande artista", pontua.
O arte do grafite é atualmente uma manifestação artística difundida mundialmente. Os brasileiros Otávio e Gustavo Pandolfo, gêmeos idênticos, são grafiteiros paulistas com fama em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Cuba, Grécia e Itália. O exemplo dos dois serve de comparação pontual aos gêmeos Nicolly e Bryan Ribeiro, alunos do 9º ano da Emef Freitas Brandão , localizada no bairro Suíssa. A veia artística pode não ser semelhante aos famosos grafiteiros paulistas, no entanto, o entusiasmo pela arte supera qualquer limitação com o uso dos sprays.
"Eu gostei muito desse trabalho. Nunca pensei que fosse fazer algum desenho em uma parede pra todo mundo ver. Estou empolgada", afirma Nicolly, que entre flores e pássaros representado por cores nas paredes, mostrava um universo perfeito de convivência pacífica entre os seres humanos. Já Bryan, em meio a sua timidez diante de algumas perguntas, revelou uma desenvoltura com a lata de spray na mão. "Estou gostando. Quero que a escola faça isso mais vezes", deseja.
O projeto
O projeto está sendo desenvolvido em cinco escolas da rede municipal: Juscelino Kubitschek, Diomedes Santos Silva, Oviêdo Teixeira, Sérgio Francisco da Silva e General Freitas Brandão. Visa, entre outros objetivos, trabalhar a grafitagem de forma lúdica envolvendo o combate à violência contra a mulher. Juntamente com os ministrantes do curso, os alunos tiveram a oportunidade de grafitar as paredes das escolas expressando a mensagem de "Não à Violência Doméstica".