Envelhecer é um direito individual e social garantido pela Constituição. Mas, ainda que estes direitos sejam assegurados, a sociedade custa a lidar com este que é um ciclo tão natural a todo ser humano. Reflexo disso são os dados apontados pelo Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos, que apontam que a cada dez minutos uma pessoa idosa é agredida no Brasil. E pior: que a maior parte dessas violações são cometidas dentro de casa e pela própria família.
À frente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa de Aracaju, a presidente Maria José Matos afirma que esta é uma problemática cultural e que precisa de mais informação e compreensão. "As pessoas consideram o idoso como algo velho e descartável, por isso tanto abandono e tanta negligência. É como se, a partir do momento em que não mais se produz renda para a sociedade, não há mais serventia", considerou.
"Nossos direitos básicos estão sendo tirados, desde o nosso poder aquisitivo e de escolha sobre nossas ações, até mesmo na questão sexual, onde nos invisibilizam e nos colocam em uma posição de assexuados. Vivemos uma vida de trabalho, de cuidados com a família e, quando podemos aproveitar de maneira plena o que aprendemos e adquirimos durante a jornada, nos colocam para cuidar dos netos sem se preocupar com a nossa rotina, com as nossas vontades. Nos tornam arrimo de família e chegam até a tirar de nós a autonomia sobre nossas aposentadorias", desabafou a presidente do Conselho.
De acordo com Maria José Matos, embora o panorama seja preocupante, o trabalho conjunto entre o Conselho da Pessoa Idosa e a Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Assistência Social (Semasc), vem levantando discussões importantes para transformar esta dura realidade. "A partir desta nova gestão estamos trabalhando para que o diálogo seja construído. Para isso, estamos promovendo debates que possam levar a reflexão a todos. Seja dentro dos órgãos da proteção social, seja na mídia ou mesmo como unidade representativa da categoria para garantir que idosos e idosas não tenham seus direitos furtados. Precisamos trabalhar isso com as crianças para que elas valorizem a importância do cuidado aos idosos", finalizou.
Vulnerabilidade e articulação
A violência contra a pessoa idosa pode se manifestar das maneiras mais diversas, como a física, psicológica, sexual, econômica, além de desamparo ou descaso. Isso se reflete nos atendimentos realizados nos equipamentos da Média e Alta Complexidade, como Creas, casas lares e abrigos mantidos pela Semasc. De acordo com os dados levantados pelo coordenador da Proteção Especial, Jonathan Rabelo, esse número chega a 101 idosos, entre homens e mulheres.
"Alguns casos chegam até nós por denúncias, mas também há idosos que pedem a nossa ajuda para que a família seja chamada e haja o entendimento. Assim, dentro dos Creas fazemos um trabalho que envolve diálogo e atividades, além do acompanhamento dessas pessoas, com o fortalecendo da função protetiva da família e da comunidade", destacou Jonathan.
Para as situações mais graves, em que todos os direitos foram desrespeitados e não restam alternativas, os abrigos e casas lares têm se tornado o único lugar de afeto e cuidados. "Nós recebemos pais e mães que foram largados pelos filhos, netos que deixam os seus avós, entre outros parentes que acabam ficando com a função de cuidadores, mas não estão preparados para cuidar de seus idosos. Nos são entregues pessoas que são totalmente dependentes e que não recebem nem a visita desses entes", explicou.
A Rede Socioassistencial do município opera o fortalecimento de vínculos de maneira preventiva em 16 Cras e desenvolve trabalhos em 20 grupos, contando com aproximadamente 770 idosos.
Atendimento e gratidão
Agradecido pela oportunidade de ter atenção, carinho, alimento, banho, acompanhamento médico e psicológico. É assim que se considera Valter Paulo dos Santos, de 66 anos, natural do interior da Bahia. Há cerca de um mês na Casa Lar Nalde, equipamento da Assistência que acolhe idosos em situação de vulnerabilidade, ele tenta resgatar em si mesmo a vontade de continuar vivendo.
"Tenho consciência de que perdi o amor dos meus filhos e da família que eu tinha por conta do alcoolismo. Fui parar na rua há muitos anos, hoje sou sozinho. Sou fruto das minhas próprias ações e agora escolhi ficar sóbrio com a ajuda do pessoal aqui do Lar Nalde. Quero envelhecer com dignidade e agradeço pela oportunidade", afirmou.
Após uma trágica perda da última esposa e sem contato com os filhos do primeiro casamento, José Carlos Rodrigues, de 64 anos e natural do Rio de Janeiro, se viu sozinho no mundo. Ainda como morador de rua, foi abordado pelo serviço de acolhimento da Prefeitura e levado para um dos abrigos, onde recebeu todo o suporte.
"Fui roubado, parei na rua. Passei frio, fome e sede. Nunca pensei que ia chegar nessa idade sem nada, porque eu tinha tudo. Ainda sou muito ativo e sei que o problema da humanidade é achar que gente velha não serve para nada. Agora que tenho assistência, minha luta é para conseguir voltar para o mercado de trabalho, para sair daqui e poder reconstruir minha vida", explicou.