Serviço de abordagem social leva cidadania à população em situação de rua

Agência Aracaju de Notícias
02/09/2019 11h00
Início > Notícias > Serviço de abordagem social leva cidadania à população em situação de rua

Postos à margem por uma sociedade baseada no imediatismo do consumo e pela contradição fundamental de um sistema econômico que produz riqueza mas não a distribui, as pessoas em situação de rua dão mostras da desigualdade social presente em todas as regiões do país.

É por entender essas circunstâncias de vulnerabilidade que a Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Secretaria Municipal da Assistência Social, especialmente do Serviço de Abordagem Social, busca criar uma rede de cidadania para essas pessoas, respeitando suas trajetórias e escolhas, mas garantindo acesso aos serviços públicos essenciais. 

Um dos objetivos da equipe interdisciplinar que realiza o Serviço de Abordagem Social é olhar para os cidadãos em situação de rua com cuidado, na busca por resolver suas demandas e demover a ideia de que o Estado é apenas um instrumento de opressão, uma espécie de entidade cuja violência é legalizada, permitida.

Para tanto, se faz necessário sutileza e determinação para quebrar a resistência preliminar existente. “A aproximação precisa ser sucinta, evitando desgastes, pois há um distanciamento em relação ao poder público, uma vez que, geralmente, quem acessa essas pessoas é a ostensividade da Segurança Pública. Quando a equipe da Assistência o procura com uma postura diferente, ouvindo atentamente suas demandas e buscando acolher, as barreiras vão se quebrando, transformando-se em vínculos. A equipe de abordagem é o elo de ligação entre a vontade deles e os serviços da Prefeitura”, explica o coordenador do Centro Pop, Edilberto Souza.

Desde 2017, a administração municipal intensificou as iniciativas de acolhimento e ressignificação da cidadania da população em situação de rua. Além de uma nova sede do Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Centro Pop), a gestão modificou a configuração da abordagem social, de forma a intensificá-la e distribuí-la por toda a capital. Assim, as equipes atuam agora de segunda a sábado, inclusive no horário noturno, respeitando a rotina e potencializando as possibilidades de uma acompanhamento permanente.

Da mesma forma, dividiu a extensão da cidade em 5 distritos, capilarizando os serviços ofertados nos quatro Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), que existem nas quatro regiões da cidade, norte, sul, leste e oeste. O Pop fica responsável pela região central. Essa medida foi fundamental para obter mais eficiência e assimilar a dinâmica própria de locomoção desses indivíduos, que, em muitos casos, veem toda a dimensão da cidade como seu território.

Consciência coletiva e respeito

Por conta de uma ideia preconceituosa disseminada na consciência coletiva da população muitas pessoas ligam para os serviços de assistência social para que as equipes retirem os usuários de determinado local, como se fossem objetos, sem vontades e aspirações. Não se trata, infelizmente, de cuidado com um ser humano, mas uma tentativa de higiene social. 

Desafiar esse pensamento mais raso é fundamental para conseguir o resultado que se espera de uma equipe de Assistência Social, garantir acesso à cidadania, ainda que os profissionais não sejam bem compreendidos. “O trabalho é difícil, pois é preciso cuidado para não espelhar uma vontade nossa no usuário, mesmo que seja com o intuito de ajudar. É preciso fazer a vontade deles. É uma questão de respeito. Além disso, existe uma questão estrutural, um sistema econômico e social que cria essas circunstâncias. São vários motivos, a quebra de vínculos, a necessidade de fugir, entre outros. Embora a questão econômica seja uma das circunstâncias mais comuns, não explica a questão por si só”, aponta o educador social há 10 anos, Emerson Pereira. 

Gente

Como qualquer espaço, na rua se encontra pessoas complexas, que trazem consigo suas experiências emocionais, familiares e sociais. Elas possuem história, sonhos, dificuldades, fé. Também buscam a felicidade e minimizar o sofrimento dentro do que é possível.

Robson Oliveira, 28 anos,  por exemplo, nasceu em Feira de Santana, Bahia, mas há pouco mais de seis meses se abriga na Praça Dom José Tomaz, no bairro Siqueira Campos. Chegou na capital sergipana em busca de uma oportunidade de emprego, “uma vida melhor”, como resume. Trouxe consigo uma trajetória difícil.

“Com o pai que eu tive era melhor nem ter conhecido, porque, sabe como é a gente que é de família pobre, né?! Sem poder contar com muita ajuda, enfrentando dificuldade desde pequeno. Ele batia na minha mãe, enchia a cara de cachaça, gastava o dinheiro todo no bar e jogo, não ajudava em nada, pelo contrário. Uma coisa puxa a outra, então isso ajudou que eu saísse de casa”, conta.

Quando se disponibiliza a escutar o que dizem, se compreende que os fatores que levam à situação de rua são variados. Um evento traumático, a sensação de não pertencimento, ou mesmo a convicção de que falhou com aquilo que é cobrado por nosso modelo de sociedade.

É pautada por essa sensibilidade que a equipe de abordagem social age. No caso específico de Robson, por meio da recuperação gratuita de todos os seus documentos, da disponibilização das condições de higiene básica, e da indicação dos serviços de qualificação profissional. 

“Eu acho ótimo que alguém tenha interesse em ajudar ao próximo, porque as dificuldades acontecem no dia a dia, a falta de uma casa,  comida, água, às vezes frio, o medo, então é bom ver que tem quem se coloque no nosso lugar. Muitos que estão nessa situação são pessoas de bem, que estão passando por um momento difícil. Com fé em Deus, logo eu consigo um trabalho e as coisas melhoram”, acredita o baiano.

Embora a questão socioeconômica seja a principal motivadora para os casos de desabrigados, o que possui uma ligação com a formação do Brasil, especialmente no que se refere aos três séculos de escravidão, como se nota pela maioria expressiva dos casos atingindo pessoas negras, novamente, os fatores são amplos.

Reginaldo Ramos de Oliveira, nascido na cidade de Ilha das Flores, nordeste do estado, 59 anos, conheceu todo o país realizando seu ofício, mas que com a escassez na contração de seus serviços, aliados a problemas de saúde físicos e mentais se estabeleceu há oito anos também na Praça Dom José Tomaz. 

“Antigamente eu tinha dinheiro para pagar uma casa de aluguel, trabalhando como desenhista. Como não tenho mais estou aqui na praça. Eu estou esperando resolver minha documentação aí com os meninos para voltar para casa da minha mãe, que é melhor do que viver do jeito que eu estou aqui”, afirma.   

Um parasita na perna esquerda tem adiado a realização de seu desejo. O acompanhamento das equipes de abordagem social também restituíram seus documentos, além de garantir atendimento nos hospitais da cidade, assim como nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) para tratamento adequado.

Cabe aos profissionais, também, criar os mecanismos para recuperação de autoestima, usando os aparatos públicos como fomentadores de esperança. O processo tem funcionado com Tiago Santos Silva, 24 anos, aracajuano da zona oeste, do Capuxo. Após perder a mãe três anos atrás, encontrou refúgio para a dor em duas companhias: a namorada, com quem se casou, e na cocaína. Ambas o deixaram recentemente, segundo ele.

“Logo depois que minha mãe morreu eu me casei, foi quando conheci a droga também, não vou negar. Há quatro meses me separei, deixei tudo para minha ex-esposa, perdi meu emprego como padeiro e agora estou sem ter onde morar. Mas estou recebendo ajuda no Centro Pop, o que é uma benção. Também consegui me livrar da droga. Espero poder encontrar logo outra oportunidade de trabalho para poder ter uma casa.

Boleiro e sambista, Thiago define como trilha sonora de sua vida a canção “Tá escrito”, do grupo Revelação, ela não o deixa esmorecer perante os desafios. “O que mais me doí são alguns olhares, como se não fosse gente, mas eu mantenho esperança”, ressalta.

Afinal, parece mesmo ser como na composição de Xande de Pilares. “Às vezes a felicidade demora a chegar. Aí é que a gente não pode deixar de sonhar”.