Grupo de dança transforma realidade de alunos da Emef Orlando Dantas

Educação
25/10/2019 14h00
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Sexta-feira, dia 25. O som da música ecoa no pátio da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Jornalista Orlando Dantas, no bairro Olaria. A quadra da escola, usada, até então, para jogos de futebol e outros esportes tradicionais, agora serve, também, de espaço para a dança.

Com a coreografia bem ensaiada e os passos sincronizados, cerca de 20 adolescentes se reúnem pelo menos três vezes por semana para ensaiar e se preparar para apresentações. O grupo de dança, formado há quatro meses, tem mudado a realidades desses estudantes.

O grupo foi formado em junho deste ano. Após comporem uma quadrilha junina para se apresentar na escola, os estudantes procuraram a direção para dar a ideia de criar um grupo fixo de dança na unidade. Com o aval da equipe gestora, começaram os ensaios e as apresentações. Quem aceitou o desafio de supervisionar o grupo foi Guilherme Alexandre Santos, estagiário da Emef.

“Os alunos já passaram a entender a dança como parte do currículo da escola, nas disciplinas de Artes e Educação Física. E não é só dançar, também incentivamos a leitura, que eles busquem a história e as expressões da dança. Não é só vir, mover o corpo e pronto. Também é disciplinar, limitar, ter domínio próprio. Isso faz com que esses meninos e meninas percebam o potencial que eles têm. Muita vezes, eles só conseguem perceber esse potencial quando são atrelados a um grupo como esse. Eles começam a perceber que, mesmo que ele seja rejeitado lá fora, aqui na escola ele é valorizado, que tem um grupo para abraçá-lo”, afirma Guilherme.

O grupo foi batizado com as iniciais da escola, JOD, e os participantes têm entre 13 e 16 anos. Desde a criação até agora, os estudantes que estão inseridos no projeto já apresentam melhora nas notas e também na frequência. Outro benefício alcançado também foi a presença dos pais na escola.

“Se o aluno tira uma nota baixa, a gente chama, conversa para entender o que é que está acontecendo. Muitas vezes o estudante encontra em um grupo de dança o apoio que ele não tem em casa. E também esse projeto tem ajudado a aproximar a família da escola. Hoje as mães vem aqui, pedem para ver o ensaio, elogiam, vão às apresentações. Bem diferente de quando só apareciam na escola no dia da matrícula e no final do ano letivo para saber se o filho foi aprovado”, pontua Guilherme.

Os alunos ensaiam às segundas, quartas e sextas-feiras, sempre pela manhã, já que estudam no turno da tarde. Com tanto empenho, aos poucos, as apresentações deixam de acontecer somente dentro dos muros das escolas. Com convites feitos pela própria comunidade, o grupo já se apresentou em praças e também no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro.

Além disso, se apresentaram também no encerramento dos Jogos Escolares 2019, promovido pela Prefeitura de Aracaju e realizado em agosto, com a presença do prefeito Edvaldo Nogueira, fato que orgulha os dançarinos e o supervisor.

O estudante José Alex Ramos mora no conjunto Parque dos Faróis, em Nossa Senhora do Socorro, e foi quem teve a ideia de montar o grupo. Mesmo morando distante, ele se organiza para não perder nenhum ensaio. “Venho para a escola de manhã e passo o dia inteiro aqui. Depois do ensaio, tomo banho, almoço e vou estudar. Agora eu estou bem mais empolgado para vir para a escola porque antes eu nem gostava tanto. Minha mãe já veio me ver ensaiar, já assistiu apresentações e ela gosta muito que eu participe”, revela.

O aluno Kaian Roberto Silva é o coreografo da equipe. Dedicado, ele reserva parte do seu tempo em casa para criar os passos de funk, pagode, hip hop, entre outros ritmos. “A dança sempre fez parte da minha vida, sempre gostei muito de dançar. Quando me convidaram para fazer parte deste grupo, eu aceitei na hora. Em casa, eu vejo vídeos, escuto as músicas e trago a coreografia para ensaiar. Muitos participantes já tem afinidade com a dança, outros não, mas todos aprendemos juntos”, diz o estudante.

A aluna Maria Eduarda Gomes conta que já está sendo reconhecida pela participação no JOD. “As pessoas falam comigo na rua, me abraçam, falam que me viram dançando. Também me seguem no Instagram e comentam sobre as apresentações. É muito bom esse reconhecimento e eu quero permanecer no grupo até o meu último ano aqui na escola”, conta.

A diretora da Emef Jornalista Orlando Dantas, Soray Brito Dantas, conta que a instituição tem passado por um processo constante de transformação. “Tudo que está acontecendo tem uma estória que começou em 2017, quando passamos por algumas intempéries relacionadas a assaltos aqui na escola, nos deixando inseguros e desmotivados. Desde então, a Secretaria Municipal da Educação nos abraçou e acolheu a escola. Foi montado um Comitê Estudantil, que começou a ganhar forma e hoje temos alunos bastante engajados com a escola”, conta.

Ainda segundo a gestora escolar, o grupo de dança é fruto desta atenção especial dada aos alunos. “A proposta é tirar o aluno da rua e trazer para a escola. Eles estão sempre aqui, até mesmo nos horários que não tem aula. Estão sempre realizando alguma atividade, como pintura, debates. Nada na Educação acontece de forma rápida, são frutos que plantamos e estamos colhendo agora. Este não é apenas um grupo de dança, é parte de um processo de formação de cidadãos”, finaliza.

Supervisor do grupo, Guilherme chegou à Emef para cumprir o estágio obrigatório do seu curso de licenciatura. Devido aos seus projetos desenvolvidos na instituição, como a Feira das Religiões, ingressou no programa de estágio remunerado da Prefeitura de Aracaju e vibra com cada conquista obtida pelo JOD.

“Se você coloca algo para o aluno e ele se sente no dever de ir, sem ser obrigado, isso já atinge um de nossos objetivos, que é trazer o aluno para a escola. Quando se cria um grupo desse, numa escola dessa, num bairro desse, você praticamente está mudando a realidade da escola e do bairro, porque outrora a escola era danificada, passou por um processo de roubos, hoje não se vê mais alunos rabiscando a parede e, quando há, os próprios alunos repreendem. Através de um grupo de dança você vai dando disciplina e, por meio de um, você atinge outros dez estudantes”, afirma.

“Tive um professor que me disse que, quando chegasse na sala de aula, pegasse todo o meu conhecimento, deixasse em um cabide na porta e me vestisse com a roupa do aluno e procurasse entendê-lo, porque, antes de passar conhecimento, eu também vou receber. Hoje, o que está acontecendo é apenas um reflexo disso, para que todos percebam que vale a pena, que é possível mudar a realidade da Educação através do professor e do aluno”, finaliza Guilherme.