Servidoras da Prefeitura encaram os desafios de se reinventar durante a pandemia

Agência Aracaju de Notícias
09/03/2021 04h00
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Historicamente, as mulheres carregam consigo o rótulo de sexo frágil, o estigma da submissão oriunda da construção social do patriarcado. No entanto, essas mesmas mulheres vêm rompendo barreiras, derrubando muros sociais e mostrando, também ao longo de suas próprias histórias, que são capazes de se transformarem todos os dias, provando para si mesmas e para o mundo que a fragilidade imposta é uma roupa que não lhes serve.

E quando o planeta se depara com uma pandemia, a maior do último século, mais uma vez são essas mulheres, seja nos seus postos de trabalho, em seus lares, em suas comunidades ou em seu mundo particular que demonstram, de novo e mais uma vez que, ainda com as rachaduras causadas pela dura realidade da pandemia, o quanto são capazes de se reinventar.  E no serviço público da Prefeitura de Aracaju há muitos bons e significativos exemplos dessa capacidade feminina, tantas vezes menosprezada pela sociedade ou colocada em segundo plano.

A assistente de Gabinete da Secretaria Municipal da Fazenda (Semfaz), Maiane Gomes, que também atua na área da saúde, chegou a ficar quatro meses longe do filho, durante o primeiro ano da pandemia e, neste processo, contou com a força de outra mulher: sua mãe.

“Cheguei a um nível de chorar todas as vezes que chegava à Secretaria, ligar para meus pais, conversei muito com uma colega de trabalho para desabafar. Eu via um paciente num dia e, com três dias no meu plantão, já não o via mais porque ele havia falecido. Então, para além das informações diárias, eu vivi a pandemia de perto, convivi com a perda de pessoas", contou. Segundo Maiane, neste período, ainda teve que se adaptar à situação do filho, de 9 anos, que ficou por quatro meses com a sua mãe, no interior, "e me vi sozinha", lembra.

"Quando eu percebi, já não tinha ninguém por perto para contar. Tirei forças da minha mãe. O fato de sermos mulheres e termos apoio de outras mulheres é muito importante. E tenho essa rede de apoio na minha família e nos meus dois ambientes de trabalho, e não é questão só de ser mulher, é que a gente se entende”, conta.

Assim como ela, a colega de secretaria e assessora de Comunicação, Luiza Sampaio, também precisou contornar os desafios da pandemia para seguir em frente. Pouco antes da pandemia, Luiza teve filhas gêmeas e uma delas partiu prematuramente.

“Eu estava de licença maternidade e voltei em fevereiro do ano passado, com o pé na pandemia. Minha filha nasceu prematura, então, tinha cuidados mais especiais, muitas consultas médicas com especialistas diversos e tive o suporte da minha mãe. Tive muito medo do que poderia acontecer com ela, já que não sabíamos muito sobre o vírus e, na verdade, ainda não sabemos. Minha mãe acabou pegando covid e acabei tendo o suporte da minha irmã pra me ajudar. Foi bem difícil", revela.

Luiza diz ainda que uma das coisas que fez diferença para o seu retorno ao trabalho foi contar com outras mulheres, como colegas de trabalho que sabiam da sua fragilidade, enquanto ela superava a perda de uma das minhas filhas. 

"Foi essa força que me fez progredir. Precisei de horários diferenciados e elas seguraram minha barra. Esse apoio e esse entendimento de mulheres que se tornaram amigas e parceiras foi essencial. Chegamos a fazer revezamento na pandemia e, mesmo não sendo do mesmo setor, aprendemos um pouco do serviço da outra para que o trabalho continuasse e nos ajeitamos. Uma mulher entende a outra”, afirma Luíza.

Como chefe do seu setor e mãe solo, a coordenadora geral de Gestão de Pessoal da Secretaria Municipal do Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplog), Fernanda Moura, viu-se em situações delicadas, seja para lidar com o dia a dia dentro de casa ou na rotina de trabalho, tendo que gerir outras 50 pessoas no setor responsável pela folha de pagamento dos servidores municipais.

“Não tinha como deixar de vir trabalhar e as aulas foram suspensas. Então, o primeiro carro de bombeiros que passasse, eu logo pensaria que seria na minha casa. Contei com o suporte da minha mãe, mas com o coração na mão, já que ela é idosa. Vinha trabalhar, mas não tinha como me desligar de casa. Me sentia com mais condições de vir trabalhar e deixei os funcionários mais velhos em casa, mas nosso trabalho não parou. A folha segue sendo paga em dia e isso é, de alguma forma, gratificante porque conseguimos dar conta”, considera Fernanda. 

Jornada ampliada
Mesmo dando conta do trabalho, Fernanda se viu numa rotina apertada em casa, ao lidar com o filho, de 8 anos. “Não acredito que haja alguma mãe que tenha se entendido 100% com as aulas online e ainda tendo que dar conta de casa, trabalho e cuidados pessoais. Houve um momento em que, logo no início, estávamos numa relação bastante conflituosa, mas que, com o tempo, foi se ajustando", rememora. 

"É tudo muito desafiador, sobretudo porque sou sozinha para tudo em casa. Ser mulher , apesar de já termos conquistado muitas coisas, continua sendo muito difícil porque temos que nos dividir em diversas funções. Isso não é vitimismo, é a realidade que só quem é mulher pode entender. Hoje, tenho muito respeito dentro do meu trabalho, tenho o reconhecimento, mas não é toda mulher que pode dizer isto. Ainda existe gente que romantiza todo esse ser múltiplo que a mulher é, mas, na realidade, de certa forma, isso nos foi imposto até para que conseguíssemos sobreviver diante de tudo o que ainda passamos diariamente. Não é fácil ser mulher, mas tenho esperança de que ainda conquistaremos muitos outros espaços”, ressalta Fernanda.  

Reinventar-se
Esses desdobramentos do ser mulher mudou o olhar de Maria da Conceição Teles com relação a si mesma. Diretora da Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Professora Maria Givalda da Silva Santos, Ceiça, como é conhecida, se viu completa ao ser mãe, aos 37 anos, e reafirmou o dom que tem em cuidar não só dos alunos, mas também de suas famílias.

“As aulas foram suspensas e tivemos que nos adaptar sem parar de prestar auxílio aos alunos e suas famílias. Preparar as aulas online foi bastante desafiador, sobretudo porque a comunidade é carente e nem todos os alunos têm acesso à internet. Então, foi um trabalho de muito cuidado e atenção. Entre a rotina do trabalho, eu ainda tenho um filho de 2 anos para cuidar. Meu marido chega junto, mas também trabalha e, para dar conta dos cuidados, conto com a minha mãe que, depois que perdeu meu pai, vê em meu menino a alegria de viver. É muito difícil desligar das duas rotinas. Quando estou em casa, não deixo de pensar no trabalho e, estando no trabalho, não deixo de pensar em casa”, destaca Ceiça.

Para ela, todo o período de pandemia tem sido transformador, sobretudo ao encarar a realidade diferente da sua. “Como diretora de uma escola, convivo com a realidade de muitas famílias, famílias pobres. A maioria dos alunos só tinha as refeições do dia na escola e, se não fosse os kits que a Prefeitura tem entregado, honestamente, não sei como fariam. Tem mães diaristas que, por conta da pandemia, perderam clientes e passam por situações muito complicada. Eu mesma já cheguei a receber mensagem de algumas pedindo ajuda e, na medida em que posso, tento contribuir", pontua. 

Ceiça entende que a pandemia trouxe muita coisa triste, mas, ao mesmo tempo, "foi um momento de muito aprendizado, sobretudo para olhar para as pessoas com mais solidariedade". "Como mulher, foi um momento de provar, mais uma vez, o quanto somos capazes de nos reinventar diante das adversidades. Mesmo quando dizem que não conseguimos, vamos lá e fazemos”, salienta.