O serviço público tem a capacidade de alterar as dimensões dos sonhos da população de um local. Através das ações ofertadas, as perspectivas de vida podem se alterar e, neste Dia das Mães, celebrado neste domingo, 8 de maio, a Prefeitura de Aracaju comemora a conquista de mulheres que, por meio dos serviços disponibilizados pelo Município, puderam concretizar, da educação ao empreendedorismo, os sonhos que a maternidade trouxe como sentido de existência.
Com as próprias mãos
Possibilidades foi o que Shirley Santos, de 36 anos, encontrou nos cursos oferecidos pela Fundação Municipal de Formação para o Trabalho (Fundat), sobretudo a possibilidade de materializar o sentimento da espera pelo filho, hoje, com 3 anos de idade.
Em decorrência de uma grave infecção, ela teve a saúde das trompas comprometida, o que lhe impossibilitou a realização do sonho de gestar uma criança. Solidarizados com a dor de Shirley, seu irmão e cunhada, que já tinham outros filhos, engravidaram para que ela pudesse adotar a criança, num ato de amor e solidariedade.
“Tentei encontrar uma maneira de, no futuro, quando ele [o filho] estivesse mais crescidinho, eu pudesse mostrar que, apesar de não o ter gestado, ele também foi esperado por mim, com muita expectativa. Então, procurei os cursos de artesanato da Fundat para poder decorar o quarto dele com minhas próprias mãos. Fiz cursos para aprender a fazer objetos em MDF, pintura em tela e, depois, crochê, mais especificamente o amigurumi [técnica de tricô e crochê] que, hoje, é a minha fonte de renda”, conta Shirley.
As mãos que aprenderam a manusear as agulhas de crochê foram as mesmas que trouxeram o pequeno Enzo ao mundo. Ttécnica em Enfermagem, Shirley realizou o parto do menino, dentro de casa.
“Fui a primeira pessoa a segurá-lo, fui eu quem cortei o cordão umbilical. Não sou a mãe biológica, mas sou a mãe de coração. Para mim, ser mãe é tudo, é o sentido da vida. Eu sempre sonhei em ser mãe, desde pequena, então, eu queria encher a casa de filho, logo cedo, assim que casasse. Me planejei para a chegada dele e queria acompanhar todas as fases do seu crescimento, tanto que o crochê se tornou minha fonte de renda porque posso trabalhar de casa. Meu mundo é com ele, é tudo para ele”, relata Shirley.
Por acompanhar o trabalho da mãe, o pequeno se encanta com cada peça montada “e quer para ele, então, explico que é para vender", conta ela. "Acabei fazendo um acordo: cada peça vendida, uma parte do dinheiro é guardada para ele, para ele escolher se quer uma peça feita para ele ou qualquer outro presente”, afirma a mãe ao destacar que, no momento, já planeja ministrar cursos para expandir os negócios.
Saber de mãe para filha
Aposentada por invalidez, Simone Bezerra Sales, 48 anos, cresceu com o estigma social causado pelas sequelas da paralisia infantil. O sentimento de rejeição a seguiu durante toda a vida, e foi a educação que devolveu a ela o direito de sonhar.
Sem a possibilidade de estudar, quando mais nova, devido às circunstâncias familiares, ela se limitou ao trabalho, enquanto o pode executar. Mas, ao ver a mãe, aos 60 anos, se libertando de uma relação abusiva e percorrendo o trajeto de encontro à escola, Simone virou uma chave e uma porta se abriu, anos depois, com o incentivo de sua filha, hoje, com 15 anos.
“Cresci vendo meu pai, que bebia e até hoje bebe muito, batendo em minha mãe e nos meus irmãos, e sempre me senti um pouco rejeitada por causa da minha deficiência, me sentia um fardo para a minha família. Quando meus pais se separaram, já idosos, vi minha mãe voltando a estudar, fiquei curiosa, mas não fui pra escola. Quando minha filha estava com 8 anos, me separei do pai dela e, ao mesmo tempo, perdi minha mãe. Foi tudo junto, um peso muito grande. Mas lembrei do caminho que minha mãe fazia pra ir pra escola e o desejo de estudar me tomou. Até então, eu só sabia assinar o meu nome”, detalha Simone.
No início deste ano, a filha de Simone, Suellen, viu o banner que anunciava as vagas para o programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), da Secretaria Municipal da Educação (Semed), destinado ao público que não completou os estudos no tempo correto e chegou na vida adulta sem a formação básica. Assim, a jovem tratou de incentivar a mãe nos estudos. Agora, ambas estudam na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Oviêdo Teixeira.
“Minha mãe me inspirou a estudar e minha filha me incentivou, isso não tem preço. Meu sonho é estudar para aprender a ler a bíblia. Acompanho a missa pela televisão, mas quero poder ler as passagens, na hora que eu quiser. Minha filha me ajuda muito. Aos finais de semana, sentamos as duas para estudar e ela me ensina, quando estou com muita dificuldade. Só somos eu e ela, e Suellen é a minha vida, tiro de mim para dar a ela e quero que ela se orgulhe de mim”, frisa Simone.
A filha, por sua vez, vê na mãe o exemplo de garra que quer ter para seguir. “Ela já fez e faz muito na vida. Já sofreu e passou por coisas que causaram muita dor. Somos nós duas para tudo e ela me inspira porque sei o quanto foi desafiador voltar para a escola e enfrentar os problemas. Se hoje estudo com ela é porque quero continuar a me espelhar em suas conquistas”, revela.
Exemplo de cuidado
Há cinco anos, Valdirene Ferreira dos Santos, 38 anos, começou a atuar como agente de limpeza, em Aracaju. A decisão partiu da necessidade, já que, na época, o salário mínimo que o marido ganhava era a única fonte de sustento da família. A profissão foi um encontro especial na vida de Valdirene que, cuidando da cidade, tornou-se exemplo dentro de casa.
“Meu trabalho é uma grande realização, para mim. Tenho orgulho do que faço e faço com muito gosto. Adoro estar na rua, limpando, cuidando dos detalhes, ver gente e, principalmente, ver que o meu trabalho faz bem para as pessoas, no geral. Meu trabalho me ajudou a sair da depressão”, destaca.
O amor que Valdirene tem pelo trabalho que executa serviu como motivação para o filho mais velho, Lucas Santos, de 19 anos. Há um ano, ele também atua como agente de limpeza.
“Minha mãe é minha inspiração maior, vem em primeiro lugar. A coragem e dedicação de minha mãe são as coisas que mais me chamam atenção. E, na vida ou no trabalho, tento dar continuidade aos valores que ela me passou: ser honesto, não passar por cima de ninguém e ser correto com as pessoas e com as coisas do dia a dia”, ressalta o rapaz.
Nascida no estado de Alagoas, Valdirene mora em Sergipe desde os 14 anos. Assim que se mudou para Aracaju, começou a trabalhar na limpeza da cidade.
“Ir para o trabalho é o mesmo que ir para uma festa, para mim. Como mãe, a minha satisfação é saber que meus filhos estão bem criados e que eu posso passar coisas boas para eles, para que tenham orgulho de quem são. Acredito que essa seja a minha missão na Terra: ser mãe e agente de limpeza para cuidar da cidade”, conclui Valdirene.