Praças públicas reforçam convivência entre comunidade e identidade cultural em Aracaju

Agência Aracaju de Notícias
28/01/2026 09h50
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A ocupação das praças públicas como espaços de lazer, convivência e integração social tem ganhado destaque como uma estratégia para a promoção da saúde mental, do bem-estar coletivo e do desenvolvimento infantil. Mais do que áreas de encontro da comunidade, esses espaços contribuem para a redução do estresse, o fortalecimento dos vínculos sociais e o estímulo a hábitos mais saudáveis, especialmente em um contexto marcado pelo uso excessivo de telas e tecnologias digitais.

Essa realidade é percebida por quem vivencia o dia a dia desses espaços. Moradora do bairro Grageru há cinco anos, Marina Melo Santos relata que a revitalização da praça Professor Alberto Carvalho, realizada pela Prefeitura de Aracaju, mudou a rotina da família. “Aqui a gente não tem muito espaço de lazer. Hoje, essa praça é o único e o melhor que a gente tem por perto”, afirma. Para ela, o parquinho e o contato com a natureza são os principais atrativos. “É ar livre, é natureza, é um espaço infantil maravilhoso”, completa.

Atenta à importância que as praças públicas representam para a vida comunitária, a atual gestão tem investido na revitalização desses espaços por meio do programa Nossa Praça, lançado em novembro do ano passado pela prefeita Emília Corrêa. A iniciativa busca estimular o uso das praças como ambientes de integração, promoção da saúde e fortalecimento dos vínculos entre os moradores, reafirmando o papel desses espaços como elementos centrais da vida urbana.

Segundo o psicólogo Thiago Dantas, o comportamento humano está diretamente relacionado à forma como as pessoas interagem com o ambiente em que vivem. “As pessoas se comportam a partir da interação com o meio, que envolve tanto as relações sociais quanto a estrutura física dos espaços. Ambientes abertos e em contato com a natureza favorecem comportamentos mais saudáveis e promovem maior sensação de bem-estar”, explica.

Essa relação é confirmada por frequentadores da praça dos Capuchinhos, no bairro América. O motorista João Vinícius do Nascimento conta que só passou a utilizar o espaço após a reforma. “Ficou organizado, bonito, com muitos brinquedos. Hoje eu venho pra trazer minha filha”, diz. Para ele, a existência de um ambiente adequado faz diferença na escolha das famílias. “Todo pai quer trazer a criança pra um lugar bonito, pra se distrair”, ressalta.

De acordo com Thiago Dantas, o contato com áreas verdes desperta uma conexão profunda com aspectos ancestrais da experiência humana. “Mesmo com todo avanço tecnológico, o ambiente natural continua exercendo influência positiva sobre a saúde emocional”, afirma. Ele também destaca o papel das praças como contraponto ao imediatismo das telas. “O celular oferece recompensas rápidas. A praça exige tempo, movimento, interação e até convivência com o tédio, o que é essencial para o desenvolvimento humano.”

Essa percepção aparece na fala de Maria Isabel Medeiros, que trabalha como babá. “Antes a gente só trazia pra passear, porque os brinquedos estavam todos quebrados”, lembra. Após a revitalização da praça Professor Alberto Carvalho, a experiência mudou. “Agora está tudo maravilhoso. Ele brinca, interage com outras crianças, aprende cores, se diverte muito mais”, relata. Segundo ela, a praça oferece algo que outros espaços não proporcionam. “Aqui ele tem mais contato com criança, a gente dá mais atenção”, diz.

No caso das crianças, os benefícios são ainda mais evidentes. Para Thiago, a infância é decisiva para a aprendizagem de habilidades sociais. “As praças oferecem experiências reais que nenhuma tela consegue substituir”, afirma. Além de favorecer o desenvolvimento infantil, as praças se consolidam como espaços acessíveis e democráticos. 

Moradora do bairro Novo Paraíso há 30 anos, Isabel Cristina Santos destaca a praticidade da praça dos Capuchinhos. “É aqui pertinho de casa. Uma praça dessa, com esse ar, essa brisa, não tem necessidade de ir pra longe”, diz. Ela também ressalta a importância do cuidado coletivo. “Só falta o povo preservar mais. A praça é linda, mas precisa de consciência.”

O acesso gratuito ao lazer é outro ponto relevante. “Diferente de espaços pagos, nas praças as pessoas podem ficar o tempo que quiser, sem pressão”, avalia Thiago. Na avaliação dele, isso contribui para a redução do estresse e o fortalecimento do sentimento de pertencimento.

Praças como espaços históricos de sociabilidade e memória

A importância das praças também pode ser compreendida a partir de uma perspectiva histórica. O professor e historiador Amâncio Cardoso destaca que, desde a antiguidade clássica, esses espaços ocupam papel central na vida urbana. “A praça sempre foi lugar de encontro, convivência, trocas e construção da memória coletiva”, explica.

Em Aracaju, fundada em 1855, praças como General Valadão, Olímpio Campos e Fausto Cardoso estruturaram o nascimento da cidade. “Esses espaços formaram o núcleo inicial da capital e seguem sendo ressignificados ao longo do tempo”, afirma Amâncio.

A ocupação também impacta diretamente o comércio informal. A comerciante Jackeline Otávia, que trabalha na praça Fausto Cardoso, afirma que os eventos são fundamentais para quem trabalha em praças. “Quando tem evento, tem público, tem venda e tem segurança”, diz. Segundo ela, a movimentação constante fortalece o comércio e torna o espaço mais atrativo. “Se tivesse sempre evento, seria ótimo. A praça fica viva.”

Ressignificação e políticas públicas
 
Ao abordar exemplos contemporâneos de reocupação dos espaços públicos na capital, o historiador cita a Praça Hilton Lopes, conhecida como Praça do 'Forró Caju', revitalizada por meio dos festejos juninos, idealizado pela Prefeitura de Aracaju. “É um exemplo claro de como a praça pode voltar a cumprir sua função social, reunindo pessoas em torno da cultura, da música e da convivência comunitária”, avalia. 
 
Outro destaque é a Praça Fausto Cardoso, que atualmente sedia a 'Semana da Sergipanidade', iniciativa promovida pela Prefeitura de Aracaju, com apoio de instituições como a Fecomércio. O evento reúne artesanato local, manifestações folclóricas, apresentações de artistas sergipanos e a comercialização de comidas típicas da região.

“O conjunto dessas atividades transforma a praça em uma verdadeira celebração comunitária, onde circulam saberes, culturas, identidades e memórias”, ressalta Amâncio. Para ilustrar a importância desses espaços, o historiador compara a praça ao quintal de uma casa. “Assim como o quintal é fundamental para a sociabilidade familiar, a praça exerce essa mesma função para a cidade. Quando esses espaços são negligenciados, a vida comunitária também se enfraquece”, explica.

Segundo Amâncio, durante um longo período, as praças passaram por um processo de invisibilização e abandono, contribuindo para a depredação de equipamentos públicos. “A ocupação é essencial para a preservação. Quando a praça está vazia, ela se deteriora; quando está ocupada, ela se fortalece”, afirma.

Por fim, o historiador avalia de forma positiva as iniciativas da gestão municipal voltadas à retomada das praças como espaços de convivência. Para ele, trata-se de uma estratégia inteligente de política urbana, que deve ser ampliada. “É fundamental que esse movimento de ressignificação se espalhe do centro para as periferias, alcançando todos os bairros de Aracaju, para que toda a cidade possa se beneficiar desses espaços de sociabilidade”, conclui.